OS CRIMES NOS DESENHOS ANIMADOS
Há tempos venho sustentando a necessidade de uma regulação da programação televisiva no Brasil. Na Câmara dos Deputados, temos insistido em duas teses quanto a este tema: a primeira é a de que não é possível retroceder nos espaços já conquistados de liberdade de imprensa e de expressão - pelo que não se pode aventar qualquer mecanismo de censura aos meios de comunicação; a segunda, é a da urgência da criação de mecanismos públicos - não estatais - de responsabilização das emissoras de TV por abusos cometidos contra a própria missão constitucional dos meios de comunicação social. Para isto, deveríamos avançar para o estabelecimento de um Código de Ética da programação televisiva. A idéia pressupõe um comitê independente para impor significativas sanções pecuniárias às emissoras que permitem o estímulo à violência e que violam os Direitos Humanos. Pois bem, a Organização das Nações Unidas - ONU- acaba de oferecer à opinião pública um estudo que agrega novos argumentos à necessidade de mudanças na TV brasileira. Segundo este estudo, 6 das principais emissoras de TV no Brasil ( Globo, SBT, Band, Record, Rede TV! e Cultura) alcançaram a média de exibição de 20 crimes por hora de desenho animado em suas programações (!) Entre os canais mapeados, o SBT é o que mantém o maior número de desenhos em sua programação - 36 ao todo, sendo, entre os canais pesquisados, o de maior percentual de desenhos em sua programação (24,16%) . A Globo mantém 12 desenhos no ar o que corresponde a 7, 23% do total de sua programação. As demais possuem espaços percentualmente menores para o gênero. Em números absolutos, o SBT expôs o maior número de crimes em uma semana de desenhos - 753, o que é 53% dos delitos em desenhos animados de todo o mapeamento. O total de crimes neste mesmo período, em todas as emissoras, foi de 1.432. Bandeirantes e Record lideram em homicídios em seus desenhos animados; a Globo vence em lesões corporais. A média mais alta ficou com a Rede TV! (antiga Manchete) com 32 crimes por hora. O estudo mostra, ainda, que dos crimes cometidos, 38% possuíam alguma justificativa (como reagir a uma violência), mas 34% eram absolutamente gratuitos. Como regra, não há polícia nos desenhos, os crimes não geram consequências às vítimas e não existe alguém para dirimir conflitos. Quase a metade dos desenhos apresentados (45%) é de origem norte americana. Sabe-se que grande parte das crianças brasileiras costumam permanecer horas em frente à TV. Os desenhos estão entre seus programas favoritos. Seria preciso estudar com mais cuidado as repercussões desta programação violenta na gênese moral infantil. De qualquer forma, os riscos desta programação parecem mais do que evidentes. Para enfrentar este processo insano de "naturalização" da violência e construir uma cultura de paz, habilitada a valorizar a diferença e intermediar os conflitos pela linguagem, seria preciso repensar também os desenhos infantis. Enquanto isto, por via das dúvidas, não valeria a pena manter as crianças o mais longe possível da TV? Marcos Rolim - 08/11/99
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