cronic.gif (909 bytes)

RACISMO À BRASILEIRA

Há muito que a mística da “democracia racial” brasileira deveria ter sido superada. Muitos são aqueles que, entretanto, persistem na idéia de que no Brasil, ao contrário de nações como a África do Sul e mesmo os EUA, teria se firmado um padrão de convivência harmoniosa e igualitária entre raças e etnias formadoras. Pois bem, o Instituto Sindical Interamericano Pela Igualdade Racial (INSPIR - email: inspir-acao@uol.com.br ), formado por todas as centrais sindicais brasileiras e pela poderosa AFL-CIO norte americana, acaba de divulgar amplo estudo sobre a presença dos negros brasileiros no mercado de trabalho intitulado “Mapa da População Negra no Mercado de Trabalho”. O estudo, realizado em convênio com o Dieese, revela o que todos já deveriam saber: a democracia racial no Brasil é uma farsa; vivemos em um país profundamente racista.

O homem branco ganha mais do que a mulher branca, que ganha mais do que o homem negro, que ganha mais do que a mulher negra. A discriminação racial, no Brasil, é maior do que a discriminação de gênero e ambas se manifestam cumulativamente garantindo às mulheres negras a dose de maior sacrifício. Na grande São Paulo, o rendimento médio de um branco é o dobro de um negro. O Mapa mostra que a taxa de desemprego é maior entre os chefes de famílias negros do que entre os brancos nas seis regiões pesquisadas: São Paulo, Belo Horizonte, DF, Recife, Salvador e Porto Alegre. Em Salvador, a taxa de desemprego entre os negros é 74,2% superior a dos brancos. A expectativa média de vida para a população brasileira é de 65 anos. Entre os negros, ela cai para 59 anos. Estudo realizado pela Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (FASE) revela que o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil, que hoje corresponde à posição de número 63 no ranking mundial, cairia para a posição de número 116 se os cálculos fossem feitos apenas com a população de afro-descendentes o que nos colocaria atrás de todos os países latino americanos, coma exceção da Nicarágua.

No Brasil, a intolerância racial -mais sofisticada e perversa- não emerge como tal. A marginalização do povo negro brasileiro é um resultado obtido graças à conivência dos brancos e à alienação da maioria dos negros pois, como bem o assinalou a professora Sueli Carneiro, do Instituto Geledés, um dos produtos dessa forma cínica e camuflada de racismo é a não criação de uma consciência coletiva nos negros, capaz de organizá-los contra esse inimigo covarde já que “ninguém é racista” no Brasil. Seguimos assim, sem Mandelas, Bikos, Luther Kings ou Malcom Xs, reproduzindo um perfil ideológico de “branqueamento” da própria imagem que temos do Brasil, o que confere silêncio e cumplicidade ao genocídio da população negra.

Este é o pano de fundo que permite valorizar sobremaneira a iniciativa tomada pela Prefeitura de Porto Alegre com sua política de quotas de empregos para negros exigida quando da instalação de grandes empreendimentos como, recentemente, nas negociações com o grupo Carrefour. Em Porto Alegre, o poder público começou a fazer algo de significativo para contrastar o racismo, este é o ponto. Uma boa notícia para os negros e para nós, brancos de alma negra.

Marcos Rolim 22-11-99

 

[Inicial]
[Links] [Ensaios] [Crônicas] [Currículo] [Relatório Azul]
[Projetos Parlamentares] [Discursos selecionados] [Direitos Humanos]