ZOOLÓGICO
Sofia, minha filha, fará 4 anos em fevereiro. Como todas as crianças, ela adora bichos. Todos. Por conta disso, vamos frequentemente ao Zoológico de Sapucaia. O passeio é, como se sabe, bonito não fosse o fato, para mim, incontornável, de observar animais presos, enjaulados. Contorno isto, no plano da fantasia, com um "plano secreto" de entrar no Zoológico furtivamente à noite e libertar todos eles. Sofia gosta da idéia e, com ela, suportamos as excursões entre um e outro sorvete. Em nossa última visita, observei com mais cuidado as pessoas e, especialmente a relação dos pais com suas crianças. Flagrei inúmeras cenas aterrorizantes. Três delas resumo neste texto. Uma mãe acompanha suas duas filhas. A maior deveria ter entre 7 e 8 anos, a menor, linda, de cabelos encaracolados e loiros, não mais do que 2. O calor era insuportável e tomávamos água em uma lanchonete. A referida senhora chega ao balcão e pede duas garrafas de água que alcança para a filha maior. Enquanto a menina coloca as garrafas sobre uma mesa, a mãe conversa com a vendedora e permanece de costas para suas filhas. A pequeninha se afasta da lanchonete e caminha cerca de 10 metros. Percebendo a ausência da garota, a mãe sai a sua procura. Quando a descobre, dá-lhe um puxão pelos cabelos e agarra seu pequeno braço com uma força tal que parecia querer arrancá-lo. A outra filha, corre em direção à irmã e, sem querer, tropeça na mesa derrubando uma das garrafas. A mãe, em meio ao choro sentido da filha menor, sentencia: -"Agora não tem água para vocês!" Então, bebe sozinha a água da garrafa sobrevivente e seguem o passeio. Mais adiante, logo depois de conferirmos como estavam as girafas, assistimos um pai carregando um pequeno bebê no colo em posição transversal, sobre suas duas mãos. O pai brincava com ela jogando-a para o alto. No começo, eram alguns centímetros e, logo, verdadeiros arremessos do bebê em direção ao céu. Felizmente, a criança sempre lhe caía sobre as mãos. Por certo, aquele pai jamais ouviu falar dos estudos sobre sequelas no cérebro das crianças produzidas pela prática que os americanos chamam de "shaking baby". Estávamos chegando perto dos rinocerontes quando uma senhora, conduzindo pela mão um garoto que chorava, interrompe sua caminhada, olha fixamente para o menino e, com o dedo apontado para seu nariz, profere a seguinte ameaça: "Ou tu paras de chorar ou te dou um murro na cara!" Estou convencido de que a violência que tanto nos atemoriza e a própria naturalidade com a qual muitos adultos lidam com ela está vinculada, de alguma forma, à violência ofertada às crianças por seus pais. Esta violência, entretanto, não é reconhecida como tal. Para todos os efeitos, é como se os pais tivessem o direito de agredir, espancar, humilhar ou ameaçar seus filhos. Acreditam que isto signifique, sabe-se lá como, "educá-los" . Já é hora de prestar atenção ao problema e enfrentá-lo. É preciso, em síntese, formar um novo consenso pedagógico no Brasil capaz de auxiliar os pais que ainda imaginam ser seu dever desconsiderar a humanidade de suas crianças.
Marcos Rolim - 06-12-99 |