REBELIÕES EM
SÃO PAULO
-
Breve informe à bancada e ao
partido
Marcos Rolim
Com esse
texto quero apresentar à bancada algumas informações básicas sobre os
acontecimentos recentes no sistema penitenciário de São Paulo recolhidas nos
dois dias em que estive junto ao complexo do Carandirú e, ao mesmo tempo,
agregar algumas posições políticas que julgo importantes para uma intervenção
pública a mais unificada possível. Assinalo, ainda, que outros companheiros do
PT, destacadamente Luis Eduardo Grenhalgh e Eduardo Suplicy - pela presença constante no local, desde os
primeiros momentos, até agora - poderão
oferecer subsídios mais valiosos.
Os fatos:
Na última sexta feira,
as autoridades penitenciárias de SP efetuaram a transferência de 4 apenados para a Penitenciária de Segurança Máxima de
Taubaté e de 1 apenado para o Rio
Grande do Sul. Esse grupo de presos integrariam a cúpula do "Primeiro
Comando da Capital" (PCC) , a mais significativa facção organizada no
interior dos presídios paulistas. (as facções rivais mais conhecidas em SP são o CDL -"Comando Democracia e
Liberdade"- o CRBC - "Comando Revolucionário Brasileiro do
Crime" e a "Seita Satânica")
Essa transferência foi o elemento catalisador de um extraordinário
movimento de protesto - sem qualquer precedente no Brasil - que envolveu 29
instituições prisionais em rebeliões simultâneas e sincronizadas no último
domingo, dia de visitas de familiares. O movimento foi planejado e decidido com muita rapidez a
partir de contatos telefônicos (via celular) das lideranças do PCC e, por sua
extensão e grau de organização, surpreendeu a todos. As rebeliões se deram com
a tomada integral dos presídios, com dezenas de reféns (funcionários do
sistema) e com milhares de familiares dentro das instituições (basicamente,
mulheres e crianças). O governo de São Paulo, por decisão direta do governador em exercício e do secretário de
segurança, determinou a imediata ocupação dos presídios pelo choque da Polícia
Militar. A intervenção da Polícia
Militar implicou em uma série de atos abusivos e inaceitáveis - como o
fuzilamento de, pelo menos, 3 presos desarmados na Casa de Detenção (cenas
mostradas pelo SBT ainda no domingo) e
por muitas ocorrências de espancamentos e violência em várias outras instituições
que vitimaram não apenas internos, mas também familiares. (uma menina de 3
anos, por exemplo, foi atingida por uma bomba de gás e encontrava-se, até
terça, na UTI) As rebeliões, de qualquer maneira, foram contidas e dominadas
até a tarde de segunda. O número de mortos - ainda sem uma conta definitiva -
foi de 19 presos. Não se sabe, exatamente, o número de feridos. Pelos
atendimentos na rede hospitalar, pode-se afirmar que dezenas de familiares
foram atingidos. Não se tem qualquer estimativa sobre o número de presos
feridos. Pelo menos um PM foi ferido à
bala.
Uma comissão de
parlamentares (Suplicy, Luis Eduardo, Ivan, Rolim, Gabeira) mais representantes
de ONGs (Pastoral Carcerária, Justiça Global, OAB, etc.) tentou durante a
segunda e a terça, acompanhar os procedimentos de revista (pente fino) da
Polícia Militar na Casa de Detenção. Até o final da tarde de terça, entretanto,
não se havia sequer logrado o objetivo de entrar na instituição e contatar
qualquer preso. O governo do estado de São Paulo, criou -esta é a verdade-
todas as dificuldades possíveis para que se exercesse uma fiscalização mínima
sobre os procedimentos posteriores à rebelião tratando os parlamentares com
desprezo e impedindo o exercício de suas prerrogativas.
O estado de São Paulo
possui, hoje, 94 mil presos, o que significa quase 50% do total de presos no
país. (estima-se que tenhamos, hoje, 220 mil presos no Brasil) Uma boa parte
deles - já condenados- ainda em
carceragens sub-humanas de delegacias de polícia. A cada mês, mais de mil novos
presos são encaminhados ao sistema apenas em São Paulo. 23% das verbas
orçamentárias previstas para o Sistema Penitenciário no ano 2000 foram
contigenciados pelo Governo Federal. Ao final do ano passado, o presidente
Fernando Henrique assinou o tradicional "Indulto de Natal" -
mecanismo pelo qual se oferece o perdão a presos que se enquadrem em
determinados pré-requisitos definidos objetivamente pelos termos do decreto -
fazendo, dessa vez, o decreto mais restritivo da história da República. (apenas
1% dos presos brasileiros foram beneficiados, contra uma média histórica de 8%
de beneficiados)
A versão do governo de São Paulo e sua resposta:
As autoridades
governamentais sustentaram a versão de que o movimento de domingo tornou-se possível
graças à extraordinária organização e ousadia do PCC. Afirmaram reconhecer que
haviam menosprezado o poder dessa facção criminosa e que, portanto, não
imaginavam que sua reação às transferências pudesse ser tão grande. Disseram,
também, que a mega rebelião possuía um "caráter político" uma vez que os amotinados não apresentaram
qualquer tipo de reivindicação relativa à execução das penas. Que, pelo
contrário, pretendiam simplesmente fazer o governo recuar na decisão das
transferências - o que, por óbvio, seria inaceitável. Essa versão terminou sendo reproduzida integralmente pela maior
parte dos órgãos de imprensa.
Ainda na segunda
feira, em coletiva à imprensa, as autoridades governamentais anunciaram as
primeiras medidas que tomariam. Basicamente, trabalham com a decisão de
"endurecer o jogo". Pretendem reforçar mecanismos de segurança e
repressão, processar os presos que haviam sido transferidos como co-autores das
mortes resultantes do movimento, restringir o acesso de visitantes, etc. Pretendem, ainda, construir unidades de
segurança máxima - aos moldes de Taubaté -
e concentrar nessas instituições as
principais lideranças das facções organizadas, de forma a isolá-las da
massa carcerária. Nessa perspectiva, o governo federal - através do Ministério
da Justiça, já anunciou a liberação de 24 milhões de reais para que o projeto
tenha início. O tom geral das declarações governamentais é o de "retomar o
controle" , "combater o crime organizado dentro dos presídios",
"afirmar a autoridade do Estado sobre os delinquentes" , etc.
A versão do PCC e sua resposta:
Na manhã de terça
feira, acompanhado do Dr. Carlos Cardoso - Promotor de Justiça e Assessor de
Direitos Humanos do MP/SP - me dirigi à Penitenciária Estadual, onde também
houve motim. Eu havia estado lá em agosto quando da Caravana que fizemos pela
Comissão de Direitos Humanos, havia conversado com muitos presos e conhecia o
seu diretor - que na época era o chefe da segurança. Sem qualquer dificuldade,
entramos na instituição, a inspecionamos, conversamos com presos, com
funcionários e com a direção. Foi possível, então, contatar, reservadamente,
com 6 dirigentes do PCC que concordaram em conversar conosco sob o compromisso
de não revelarmos os seus nomes. As informações a seguir são aquelas que eles
nos passaram:
O PCC teria planejado
o movimento na sexta feira, tão logo souberam da transferência dos seus
companheiros. Foram informados dessa transferência por um funcionário de
Taubaté, via telefone celular. Taubaté é dirigida pelo Sr. Ismael Pedrosa, que
era o diretor do Carandirú quando do massacre em 1992. Segundo o PCC, ele é
diretamente responsável por um regime prisional alicerçado na prática constante
de espancamentos. Afirmaram que um dos seus assessores diretos - conhecido como
"Rambinho" - diverte-se espancando presos com golpes de cano. Que
esse mesmo funcionário matou um apenado em uma sessão de golpes e que nada lhe
aconteceu. Informam, ainda, que o regime imposto aos condenados em Taubaté lhes
assegura 30 minutos diários de pátio e proíbe os presos de manterem relações
sexuais com suas companheiras. Agregam, ainda, que são humilhados diariamente e
que a alimentação oferecida é uma "lavagem" . Por conta dessas
condições, não aceitam transferências para aquela unidade e preferem morrer do
que serem "embalados" para lá.
Afirmaram que o
movimento foi decidido para o dia de visitas porque essa seria a única garantia
que eles teriam contra uma provável invasão do Choque. Imaginavam que com os
familiares dentro das instituições, o governo não teria alternativa a não ser
estabelecer uma negociação com eles. Afirmaram que a ordem dada aos
"irmãos" era a de tomar as cadeias, não fugir e impedir qualquer
morte. Queriam demonstrar força e serem ouvidos. Nas palavras de um deles: "queríamos demonstrar que nós não
estamos enterrados vivos como eles pensam"; ou, como o disse outro:
"O único jeito deles nos ouvirem é fazendo baderna" . Ninguém do
Estado, entretanto, estabeleceu com o comando do PCC qualquer contato; que o
Choque invadiu as penitenciárias atirando contra presos, familiares e reféns.
Que, antes disso, poderiam ter fugido e não o fizeram; que poderiam ter
decidido pela morte dos reféns e não o fizeram. Que as mortes de alguns
apenados pelas mãos de outros caracterizaram "acerto de contas",
entre indivíduos e grupos, e que isto
escapa totalmente do controle deles, especialmente em cadeias maiores com
milhares de presos.
Afirmaram que possuíam
uma "pauta de reivindicações" onde o problema das tranferências para
Taubaté era apenas um ponto; importante, por certo, mas um ponto. Que, por essa pauta,
exigem o fim dos espancamentos no sistema; a maior agilidade na
tramitação dos seus processos e na concessão dos benefícios de progressão de
regime; o contato com a Corregedoria do sistema; providências quanto a alguns
diretores de presídios que estariam, propositalmente, misturando presos de
facções rivais - o que equivale a uma sentença de morte (citam os presídios de
Guarulhos, Franco da Rocha, Sorocaba, Pirajuí, Pacaembú e o Anexo da Detenção
como caso típicos) ; e o fim da humilhação das visitas - submetidas à praxe do
desnudamento, exibição dos órgãos sexuais, etc. quando das revistas.
Relataram possuir uma
organização que pode repetir movimentos como o de domingo a qualquer momento e
que, da próxima vez, "a coisa será bem mais séria porque estaremos
preparados para receber a tropa de choque" . Relataram que seu
"partido" - a forma como se referem ao PCC - possui um Estatuto e
que, por esse documento, se obrigam a recolher, mensalmente, 30 reais ao
"caixa 1" da organização. Com esses recursos, montaram uma rede de
assistência aos "irmãos" (filiados ao PCC) e aos "primos"
(presos amigos da organização). Pagam despesas com advogados, compram remédios,
ajudam familiares mais necessitados. Na penitenciária Estadual, ofereceram à
administração a possibilidade de compra de uma ambulância para o transporte dos
doentes (!) Possuem, ainda, um
"caixa 2" com recursos de ações externas - notadamente assaltos,
sequestros e tráfico - com os quais financiam operações externas como resgate
de presos e execuções.
Relataram que possuem
vários funcionários do sistema na "folha de pagamento" do PCC e que,
por conta disso, podem contar com armas, celulares e drogas a qualquer momento
e na quantidade que puderem pagar.
Afirmaram que não irão
mais tolerar casos de tortura e que "para cada irmão espancado, um
carrasco será morto". Que não possuem qualquer contrariedade às punições
contra presos feitas "na caneta" - isolamento, corte de benefícios,
etc. que consideram que "preso que erra tem de pagar, mas só paga quieto
quando sabe que a punição é justa" .
Uma avaliação política sob a égide dos Direitos Humanos:
O movimento dirigido pelo PCC em São Paulo se diferencia no histórico
de rebeliões em presídios brasileiros basicamente por três características
marcantes:
1)
Sincronia
da ações em âmbito estadual - nunca se logrou uma rebelião que envolvesse,
simultaneamente, tantas unidades prisionais e, muito menos, em área geográfica
tão significativa.
2)
Nível
de organização - O PCC promove uma relação hierárquica fundada por um pacto de
sangue. Dissensões e traições são punidas com a morte. A disciplina da
organização parece ser muito consolidada e a estrutura organizacional - ainda
que pouco complexa - é operante e mobilizável em curto espaço de tempo.
3)
A
exposição de familiares - Uma das regras mais preservadas pelos presos
brasileiros sempre foi o respeito aos familiares. O PCC não renega essa
tradição, mas introduziu uma importante mudança quando decidiu-se por expor
mulheres e crianças aos riscos de uma rebelião, valendo-se deles como escudos
humanos.
Uma perspectiva política comprometida com os
Direitos Humanos não pode ser conivente com a postura do PCC pela decisão de
expor familiares e, notadamente, centenas
de crianças, aos riscos inerentes a uma rebelião. Trata-se de uma
postura instrumental que reduziu milhares de pessoas indefesas e fragilizadas aos
riscos de um massacre. Na mesma linha, é absolutamente inaceitável que presos
tenham sido assassinados - alguns deles com requintes de selvageria - em
"acertos de contas" produzidos por facções rivais. Devemos exigir que
as investigações em curso identifiquem a autoria e as responsabilidades envolvidas
nesses casos de execução que nos remetem à barbárie. Pelos mesmos motivos, não
podemos ser coniventes com a decisão de tomada de reféns. Nenhuma circunstância
prisional, sequer a mais grave e humilhante entre as vividas pelos internos,
pode justificar a ameaça de morte que pressupõe a tomada de um refém.
Procedimentos dessa natureza são inaceitáveis.
Por outro lado, avalio que não
se deve superestimar a organização do PCC; ou de qualquer outra facção atuante
em presídios brasileiros. Suas lideranças, com raras exceções, são integradas
por presos com formação rudimentar, desprovidos de qualquer capacidade de
planejamento a médio ou longo prazo, incapazes de realizar movimentos táticos,
de reconhecer com clareza o papel dos agentes sociais , etc. São lideranças que
agregam, em sua ousadia, frieza ou despreendimento, os termos de uma situação
sem saída em que se descobriram. São jovens, semi alfabetizados, com longas
condenações a cumprir e absolutamente desprovidos de perspectiva. Essa condição
os impulsiona mais do que qualquer outra e, nela, o que se verifica é o
desespero. Em verdade, penso que sempre que se superestima o potencial desses
grupos clandestinos, o que se procura obscurecer é a fragilidade e a
incompetência do Estado. Assim, por exemplo, boa parte das matérias da imprensa
destacou que os presos do PCC são tão organizados que comandam as ações com o
uso de telefones celulares. Ora, ninguém registrou que os presídios de São
Paulo não dispõem de detetores de metal - equipamento elementar de segurança
prisional. Se não há detetores de metal, então haverá armas e celulares com os
presos. O que aparece como uma força do PCC é, então, apenas uma expressão da
incompetência dos agentes públicos e do tradicional descaso dos governos.
O espaços para a organização de comandos clandestinos dentro de
estruturas prisionais é, de outro lado, diretamente proporcional à ausência de
mecanismos institucionais de interlocução do próprio sistema com os presos.
Parece incrível, mas a maioria dos presídios brasileiros não dispõe de qualquer
instituto de recolhimento de queixas e demandas de internos. Como regra, as
direções das casas prisionais não estabelecem acordos, pactos, combinações com
a massa carcerária em torno de procedimentos administrativos que envolvem a
execução penal para além daquilo que dispõe a Lei de Execução Penal (LEP).
Agem, então, de forma absolutamente arbitrária impondo aos presos uma sucessão
de novas sentenças - agora extra-judiciais - que vão desde a postura exigida ao
deslocar-se no interior das unidades (braços cruzados, mãos na cabeça,
contenção em área delimitada por faixas, etc) até a privação do exercício da
sexualidade. O sistema reproduz as características que definem as chamadas
"instituições totais" e funda o cárcere como uma instância de
sujeição e disciplina, voltados para o amesquinhamento e a aniquilação dos
indivíduos. O próprio sistema prisional
brasileiro é, sabidamente, um sistema fora da lei que promove,
institucionalmente, a violação de correspondência dos internos - prática que
viola a Constituição - , o desnudamento dos familiares, incluindo crianças,
quando das revistas; que viola a determinação legal de prisão em cela
individual; que sonega o direito ao trabalho, à saúde e à educação dos internos,
que mantém presos em isolamento por meses a fio, quando não por anos inteiros
como flagramos em Piraquara - PR - na Caravana; que abriga e protege
torturadores, que é conivente com a corrupção, que encarcera pessoas, como em
Fortaleza, sem conceder-lhes sequer alimentação, etc. Por conta dessas marcas, o sistema necessita da obscuridade e é
concebido a partir de imposições ditas " de segurança" - todas elas
também ilegais - pelas quais se veda a luz pública no interior das
instituições. A sociedade civil, por definição, está excluída de qualquer
possibilidade de acompanhamento da execução penal pelo que relega-se os presos
ao mais completo abandono. De fato, pretende-se que eles sejam "
enterrados vivos" ; quem há de se importar?
A
postura tomada pelo governo de São Paulo nos ofereceu um exemplo de
irresponsabilidade no trato de conflitos agudos no sistema prisional. Por
determinados constrangimentos casuais - como, por exemplo, a presença dos
órgãos de imprensa no Carandirú e o sobrevôo de helicópteros das emissoras ; as
cenas exibidas na tarde de domingo pelo SBT que flagraram o fuzilamento de três
presos ou a decisão do PCC de realizar um protesto que não envolvia uma
possível resistência à invasão do choque- impediu-se um massacre que parecia ser
o desdobramento mais lógico da decisão de atribuir à PM a solução do conflito.
Ora, precisamente essa decisão foi saudada pela opinião pública, submetida,
aqui, aos limites erguidos pelo preconceito e à hegemonia ideológica das
opiniões mais reacionárias. Cabe a nós, do PT, criticar radicalmente o governo
de São Paulo por essa primeira decisão que é, em si mesma, inaceitável. Não se
autoriza a invasão de uma casa prisional pelo choque quando há dezenas de
reféns e milhares de familiares junto aos internos. Aceitar isso equivale a
saudar a barbárie.
Nessa mesma linha,
devemos criticar radicalmente a PM pela postura covarde de alguns dos seus
integrantes que dispararam seus fuzis contra presos desarmados e pelas costas
como as cenas do SBT revelaram. Mais, devemos criticá-la pelo emprego de bombas
de gás e pelos disparos com balas de borracha que expuseram e feriram
familiares de presos, incluindo crianças,
e que colocaram em risco absolutamente desnecessário a vida dos
funcionários que haviam sido tomados como reféns. O procedimento não tem
fundamentação técnica e viola todas os princípios da convenção 169 da ONU sobre
o emprego da força e uso de armas de fogo por parte dos agentes encarregados de
fazer cumprir a lei - da qual o Brasil é signatário.
Devemos
criticar o governo de São Paulo pela ausência de transparência e pelo
desrespeito com que tratou os parlamentares e as entidades que tentaram
contatar com os presos da Casa de Detenção. Não é admissível que um Senador da
República e vários deputados federais e estaduais sejam obrigados a permanecer
por 48 horas esperando autorização para realizar uma inspeção que integra suas
prerrogativas mais elementares. O que se desconsidera, aqui, é a própria
democracia e delegação conferida pelos cidadãos aos seus representantes.
Devemos
criticar o governo de São Paulo pela absoluta desconsideração com que tratou os
familiares dos presos em todo o episódio e nos dias que sucederam o motim. Em
nenhum momento, um único representante do governo dirigiu-se ao familiares dos
internos fornecendo-lhes qualquer informação. Sequer o nome dos mortos foi
apresentado àquelas mulheres - mães, esposas, filhas - que se aglomeraram às
centenas em torno das casas prisionais à procura de informações; na maior parte
das vezes apenas para saber se o seu familiar estava vivo. A esposa de Marco
Willian Camacho, um dos dirigentes do PCC, transferido para o Rio Grande do
Sul, sequer foi informada da transferência, não sabia - ainda na terça feira -
em que presídio ou em que cidade do RS seu marido se encontrava. Quando me
encontrei com ela, me contou que havia descoberto no final de semana que estava
grávida e que não podia sequer dar a notícia ao marido. Certamente, o governo
do Sr. Geraldo Alkmin não trataria dessa forma os familiares do senhor Nicolau
dos Santos. Gente fina, como se sabe, é outra coisa.
Esse
governo de gente fina de São Paulo, gente que nunca colocou os pés dentro de um
presídio, que nunca manteve uma conversa com um interno, mas que - mesmo assim
- dirige-se à imprensa para oferecer receitas de como se deve tratar com
"essa escumalha" não pode merecer de nossa parte qualquer palavra de
apreço e, muito menos, elogio. Nesse
momento, o governo de São Paulo age em sintonia com as vozes professorais das
eminentes autoridades da República sempre dispostas a clamar em favor da
"ordem"; a mesma ordem que industrializa miseráveis, que empurra
milhares de jovens à delinquência e que lhes reserva seu lixo e suas prisões.
Desafios de curto e médio prazo:
O
primeiro problema a enfrentar, particularmente no caso de São Paulo, é o da
disputa sobre qual o caminho a seguir no enfrentamento à crise do sistema
prisional. Se o caminho a ser seguido for, como tudo indica, um incremento das
restrições impostas aos presos, novas supressões de direitos, enfim, o
endurecimento, estou convencido que estaremos, em breve, novamente contando
cadáveres. Se, pelo contrário, o caminho a ser seguido envolver um processo de
escuta das demandas dos internos e um diálogo produtivo com compromissos
estabelecidos de parte a parte, nos termos da LEP, temos uma boa chance de
distensionar o sistema e evitar a eclosão de movimentos como o do último
domingo.
Sustento que devemos
propor a redefinição da política de administração prisional nos marcos das
"Garantias e Regras Mínimas" que apresentei ao governo do Estado do
RS em 1999. Nesse documento, ofereço um regramento global para o sistema
penitenciário redefinindo praxes administrativas, abrindo as unidades
prisionais à sociedade civil através de uma nova composição dos Conselhos de
Disciplina, criando o devido processo legal para as punições por transgressão
disciplinar e , portanto, reduzindo
radicalmente a discricionariedade do agente público, etc. A proposta incluiu um
mecanismo institucional de interlocução com os presos com a criação da
representação prisional.
A
médio prazo, o desafio maior será o de demonstrar à opinião pública que o
modelo prisional brasileiro - condicionado largamente pelo Código Penal de 1940
- é , ele mesmo, incapaz de ser
reformado ou saneado. Uma estimativa bastante conservadora nos apresenta, hoje,
o déficit de 90 mil vagas no sistema prisional brasileiro. Temos cerca de 220 mil
presos e algo em torno de 300 mil mandados de prisão para serem cumpridos no
país. Apenas esses números são suficientes para demonstrar à exaustão a
insanidade pressuposta na idéia de que seja possível enfrentar a crise do
sistema penitenciário construindo novas prisões. Ora, ou bem se diminui
radicalmente a demanda por encarceramento no país, ou não haverá qualquer
solução possível. Ao contrário do que o senso comum costuma imaginar, quanto
maior o número de pessoas que mandarmos para a prisão, mais inseguros
estaremos. Sim porque o encarceramento é, sabidamente, um dos fatores mais
importantes da criminogênese. Ao
invés de erguer prisões, nosso desafio consiste, precisamente, em esvaziá-las.
As penas privativas de liberdade devem ser reservadas, basicamente, àqueles
cuja presença na sociedade ofereça ameaça concreta à vida ou à integridade dos
demais. As prisões não devem ser concebidas como espaços para a vingança
social, mas como instrumentos de uma apartação necessária à preservação da
vida. Nosso caminho deve propugnar , na linha do Direito Penal Mínimo, o
alargamento das possibilidades de aplicação de penas alternativas à prisão. No
Brasil, de cada 100 condenações por ilícito penal, 98 recebem como pena a
prisão e apenas 2 recebem sentenças de penas alternativas. Na Inglaterra, como
de resto na grande maioria dos países europeus ocidentais, de cada 100
condenações por ilícito penal, 80 recebem penas alternativas à prisão e apenas
20 recebem sentenças privativas de liberdade. Ao invés de seguirmos o modelo
americano de encarceramento em massa e de leis penais cada vez mais
demagogicamente "duras", faríamos melhor se olhássemos para a
experiência européia e sua política criminal. Nós do PT devemos ter um especial
cuidado com esse tema para que não reforcemos, por desaviso ou ingenuidade, a hipótese
repressiva que caracteriza a face
oculta da figura ideológica do Estado Mínimo, a que costumo chamar de
"Estado Penal Máximo".
Obs - Informações úteis sobre o tema podem ser
encontradas nos documentos:
1)
"Relatório da II Caravana Nacional de Direitos
Humanos - uma amostra da realidade
prisional brasileira" - Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos
Deputados, 2000 e
2)
"O Labirinto, o
Minotauro e o Fio de Ariadne - Garantias e Regras Mínimas para a Vida Prisional",
Marcos Rolim, 1999.
Ambos acessíveis em www.rolim.com.br