FEBEM: um exercício de resiliência De uma certa forma, já se encontra nesta apresentação um dos conceitos que considero como um dos melhores operadores para entender a complexa tarefa da FEBEM, especialmente no governo democrático e popular: a resiliência. Advindo da Física e utilizado pela Engenharia, resiliência é um conceito referente à capacidade de um material sofrer tensão e recuperar seu estado normal, após ultrapassado o "estado de risco". Na Psicologia, o termo vem sendo usado para expressar a capacidade humana de enfrentar adversidades sucessivas, o que pressupõe auto-estima e presença de um certo sentido para a vida, capazes de servir como suportes. Ao contrário, quando há uma autoconfiança diminuída ou a fragilidade de vínculos significativos, as pessoas se acreditam impotentes, tornando-se desvitalizadas e passivas. Mas qual a importância de iniciar um balanço de gestão com questões referentes à resiliência? É certo que é preciso ser muito resiliente para administrar uma instituição como a FEBEM, uma espécie de "patinho feio" nos governos, capaz de "derrubar" dirigentes e ameaçar a imagem política de governantes, sempre que esta espécie de "bomba-relógio" não for desarmada a tempo. Por outro lado, é preciso muita determinação para suportar o fato de que o fracasso institucional parece fadado a ser notoriamente demonstrado, especialmente num governo de esquerda, enquanto os seus bem sucedidos passos despertam, geralmente, pouco interesse das pessoas. Assim como também é pertinente lembrar que há um histórico plus de resistências sempre que uma mulher assume a direção da FEBEM. Sem dúvida, teríamos até agora motivos suficientes para evocar a resiliência... Contudo, a questão nos parece ser mais abrangente se o governo democrático e popular desejar mudanças estruturais na Fundação*3. Em primeiro lugar, porque a tarefa especializada desta instituição abrange justamente o atendimento a crianças e adolescentes cujas vidas estão marcadas por obstáculos e sofrimentos. Portanto, poderíamos nos indagar sobre as condições da FEBEM para educar no sentido da resiliência. E a resposta inequívoca que acredito voltaria a dar, 17 meses depois, seria esta: é muito complicado para os funcionários (independente de sua qualificação) ativar a resiliência de abrigados e adolescentes infratores quando a própria instituição se encontra, no imaginário social, desacreditada. Como evitar uma resposta de mero espelhamento? Como não repetir os maus tratos e a violência que geraram o ingresso destas pessoas na Fundação? É assim que qualquer escuta de funcionários na FEBEM certamente focalizará, em primeiro plano, a vivência intensiva de abandono, com toda sua carga de significações traduzidas em inúmeras demandas (mais funcionários, mais horas/extras, mais cursos, mais...), como se a experiência de desamparo se constituísse no cimento do tecido social que une tais trabalhadores *4 . Como lidar com o funcionário queixoso, que deseja apenas listar suas demandas ao chefe e, desta forma, não problematiza para pensar o que e como fazer? Como empreender um novo modo de gestão pública quando esta cultura do ressentimento acaba acentuando a força inercial do Estado burocrático? As duas saídas mais apontadas nos debates sobre a FEBEM por alguns setores desse governo podem ser consideradas equivocadas: a "política do surdo" e/ou a "política do ortopedista", que oscilam entre ignorar o sentido destas manifestações ou buscar extirpar o problema. Do ponto de vista da dinâmica psicológica, sabemos que desconsiderar as queixas não evita seu reforço. Ao contrário, a surdez diante da queixa serve apenas para alimentar os sentimentos de desvalia ali expressos. Por outro lado, excluir o queixoso também pouco resolve, ainda mais porque tal medida significaria, como no caso da FEBEM, no afastamento de centenas de trabalhadores. Trata-se de um recurso violento e na contramão do projeto político de um partido como o PT, além de reforçar a perversa lógica de descartabilidade social que se pretende justamente reverter no caso da Fundação. É por isto que, desde o início, fomos acentuando em nossas manifestações públicas a necessidade de tornar a instituição mais resiliente. E isto começava por valorizar as melhores experiências institucionais. Todavia, esta posição recebeu outro tipo de críticas, pois algumas expectativas eram no sentido de circunscrever nossas escolhas aos limites deste governo, muitas vezes priorizando critérios político-partidários em detrimento do perfil técnico, com prejuízo para algumas áreas vitais da Fundação, como a diretoria socioeducativa que exige um nível de excelência profissional dada sua complexidade. Também não raramente fomos surpreendidos por tais pessoas veicularem na instituição um discurso iluminista ou revanchista em relação a gestões anteriores, reforçando o sintoma institucional de não reconhecimento da sua própria potência de transformação. Apesar disto, continuamos a materializar ações afirmativas: o "Projeto FEBEM 30 anos", que propiciou a reconstituição da história através dos seus personagens; a criação de uma agenda de datas que foram comemoradas junto aos trabalhadores; a edição de um informativo periódico, para difundir as iniciativas geradas em todos os setores da instituição. E, de forma destacada, cabe lembrar a realização de um grande evento cultural, ainda no primeiro semestre, com o sugestivo nome de "FEBEMFAZBEM", aberto à comunidade, com a participação de mais de mil pessoas e ampla cobertura na mídia. Em síntese, buscamos um conjunto de ações que não tinha a finalidade de populismo ou de marketing político (como inclusive chegou a ser equivocadamente insinuado por críticos da gestão). O que se queria era "pegar na veia institucional", ativar a vitalidade das pessoas através do reconhecimento afirmativo de suas próprias trajetórias. Uma espécie de estratégia para tirar o inconsciente institucional da lógica da falta. Um atrator para encorajar e agregar aliados para a construção do novo na FEBEM. *3 OLIVEIRA, Carmen S. de. "O começo do fim da FEBEM." In: MARQUES, J. Luis (org). Rio Grande do Sul: Estado e Cidadania. Porto Alegre: Palmarinca, 1999. *4 PAULON, Simone. "Um limite trágico como analisador institucional: notas acerca do processo diagnóstico da FEBEM". Porto Alegre, outubro/99, documento interno. OPINIÃO |