A militância burocrática

Sem descartar as hipóteses anteriores, apresento uma outra, talvez mais polêmica: as dificuldades que encontramos para desconstruir a FEBEM burocrática emerge do próprio campo da esquerda*16 . Trago uma situação exemplar para desdobrar esta tese.

Especialmente nas discussões sobre a transferência da área de abrigos para a Secretaria, ficaram muito evidentes nossas diferenças quanto aos modos de gestão pública. De um lado, a defesa do "debate a portas fechadas", sob a argumentação de uma tendência institucional ao corporativismo que poderia frear as mudanças propostas. De outro, a proposição favorável à constituição de alianças, pelo entendimento de que um "canetaço" naquele momento poderia fazer ruir a confiança que vinha sendo duramente conquistada junto aos trabalhadores. Infelizmente, prevaleceu a primeira alternativa e, numa sucessão dramática, vários outros desgastes junto a entidades e aos trabalhadores foram advindo desta concepção de "centralismo democrático": a falta de autonomia para a composição da equipe diretiva17*, o debate na equipe diretiva sendo substituído por uma linha direta de alguns diretores com a Secretaria e por uma espécie de correia de transmissão do poder central, o convívio transformado em cálculo (através das técnicas de conchavos, controle das dissidências, cooptação e emparelhamento das posições).

Parece ser necessário elucidar o que significa "direção de processos" no governo democrático e popular: trata-se de animar as reformas pretendidas ou de "manter a história na mão", como quem mantém as rédeas de um cavalo para a condução ao lugar previamente determinado? Pode-se falar de gestão democrática quando a disposição a convencer não se faz acompanhar de uma sincera capacidade de também ser convencido? Será mesmo que tudo é uma questão de "ame-o ou deixe-o"?

Desde este ponto de vista, poderíamos afirmar que as conseqüências deste tipo de militância se assemelham muito aos efeitos da máquina de disciplina da instituição total. Senão, vejamos... Na instituição total, como a FEBEM, a convivência se pauta por um permanente estado de vigília, concorrendo para o desenvolvimento de um certo padrão paranóide nas relações. Como desarmar quando se está sentado num barril de pólvora?

Num tipo de militância algo parecido acontece. A voragem do primeiro governo potencializou em certos militantes uma necessidade de controle, suscitando desconfianças e uma atitude de indisposição ao outro. Além disto, a pressa em obter resultados muitas vezes determinou que etapas fossem "queimadas". A diversidade foi sendo intolerada, na medida em que a construção coletiva requer tempo e paciência. E a gestão do governo democrático e popular na FEBEM foi decepcionando a quase todos, justamente ali onde se queria afirmar a diferença maior deste projeto: a participação. Acabamos ora amotinados, ora reféns, mas quase sempre isolados, principalmente entre nós mesmos.

Portanto, parecem inadiáveis algumas reflexões para os próximos gestores da FEBEM no governo democrático e popular: "O que estamos fazendo? O que queremos? Como vamos materializar isto? Como construir uma dinâmica política que nos estimule e teste?". Se isto não puder ser pautado e reforçadas as premissas da burocracia, da instituição total ou deste tipo de militância, a FEBEM estará muito longe de educar para a cidadania. Portanto, a desinstitucionalização é um processo bem mais complexo do que fechar as instituições totais, na medida em que se pode recompor sua mesma dinâmica em outras estruturas tão segregativas quanto aquelas.

Por uma sociedade inclusiva

OPINIÃO

 

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