O estranho pacto de ressentimento

Por último, é inevitável abordar também a traumática experiência de exclusão vivenciada dentro do governo (gerando o pedido de exoneração do cargo de Presidência) e na relação com o Judiciário e Ministério Público (determinando juridicamente o afastamento de parte da direção da FEBEM). Como estas vivências demandam não apenas uma elaboração individual mas coletiva, cabe uma reflexão a respeito.

Por que alguns juízes e promotores utilizaram de expedientes tão severos como a representação criminal e um pedido de liminar de afastamento para julgar um suposto crime de falsidade ideológica e "irregularidades administrativas" *18?. Talvez a indagação ainda mais pertinente fosse outra: quais os motivos para que as provas documentais apresentadas até agora ao Judiciário e Ministério Público fossem inócuas diante das afirmações não comprovadas dos denunciantes?

De um lado, parece bastante clara a desproporcionalidade das penalidades aplicadas, uma vez que nenhum pedido de afastamento foi encaminhado em gestões anteriores onde ocorreu uma sucessão de episódios violentos, com mortes de internos e sérias denúncias de violação de direitos humanos. Portanto, para entender tal desproporcionalidade utilizo uma pista encontrada no pedido de liminar, assinado por dois promotores. Num dado parágrafo, encontra-se a seguinte expressão: "não seria plausível se esperasse que a atual Presidência da FEBEM e o pessoal de que se está assessorando viesse a obrar doravante com eficácia, quando não o fizera em passado ressente". É óbvio que o sentido proposto seria "recente" mas, num documento tão bem redigido, este tipo de equívoco parece ir além do que um lapso gramatical. Na linguagem psicanalítica isto eqüivaleria a um lapso do inconsciente ou ato falho...

Considero importante levar em conta esta hipótese por alguns motivos. Primeiro, porque aquele texto é eivado de inequívocas declarações depreciativas sobre esta gestão na FEBEM, embora vários dos problemas envolvendo o Instituto Juvenil Masculino já se encontram hoje ou superados ou muito bem encaminhados, como é o caso das reformas estruturais que estão em desenvolvimento e a transferência temporária para Osório. Mesmo assim, a manifestação de desesperança em relação a futuras modificações acaba se justificando em função de um passado. Desta forma, há um sobreinvestimento na memória fazendo a cena congelar. Então, aquilo que é movimento vira imagem fixada, o que é filme se transforma em fotografia de álbum.

Mas a manifestação transcrita daqueles promotores também revela um outro aspecto. Há um julgamento prévio do que sequer aconteceu: "não seria plausível esperar que tais pessoas irão trabalhar de forma obreira", afirmam os promotores. Por que não seria plausível? Será que o balanço deste primeiro ano não demonstra que tivemos uma gestão obreira? Haveria algum motivo para o que se chama em Psicanálise de "compulsão à repetição"? Afinal, como lembra o poeta Carlos Drummond de Andrade, a vida é bailarina e nenhum ponto inerte anula o viravoltear das coisas. Sendo assim, qual o sentido de voltar a inocular a FEBEM com o veneno do ressentimento que vem subtraindo há muito tempo a potência criadora que também subsiste e insiste na instituição?

Portanto, é evidente existir nestas manifestações de ataque uma "predisposição à indisposição". Em síntese, temos aqui uma atitude crítico-acusatória pelo passado (o que foi feito antes de nós e pelo que fizemos), mas também pelo futuro (o que supostamente seremos), numa vivência eminentemente negadora do presente. Do ponto de vista psicanalítico, uma falta injetada ou produzida, uma vez que não podemos nem modificar o passado nem antever o futuro.

Trata-se, portanto, de uma visão congelada e catastrófica sobre os rumos da Fundação, que também foi observada em setores do governo. Numa das reuniões da Secretaria, um integrante daquele Gabinete manifestou um conselho ao Secretário: "Esquece a FEBEM. Aquilo lá não tem mais jeito". Ou, então, a insinuação feita pelo ex-diretor socioeducativa na primeira rodada de prévias para a Prefeitura de Porto Alegre, no sentido de que "A FEBEM vai indo bem só por mais um tempo. Estamos encaminhando uma mudança para daqui há pouco." Coincidentemente, dias depois, o juiz Leoberto se manifestou assim a um dirigente do governo, que o cumprimentava pelo apoio dado à transferência do IJM para Osório: "É por pouco tempo. Estou largando uma bomba no colo da Dra. Carmen." Na seqüência, temos a sugestão encaminhada por membros da direção de que efetuássemos uma "renúncia coletiva", mesmo antes da primeira defesa junto ao Ministério Público. É bom lembrar ainda uma entrevista dada a um repórter da Rádio Gaúcha, em Buenos Aires, pelo Secretário (embora não confirmada por ele) em que são feitas críticas à administração da FEBEM e ele refere que a Presidente permanece no cargo, sob avaliação do Governo. E, finalmente, temos o depoimento confuso e auto-culpabilizador dado pela diretora Neide, na contramão da reconstituição dos fatos. Estranho pacto de ressentimento...

Podemos até entender as circunstâncias históricas que contribuíram para que, não apenas tais juízes e promotores mas também a sociedade, construíssem esta crônica decepção com a FEBEM. Mas como se justifica dentro do governo esta mesma ruminação da memória, se sobrepondo a uma análise mais isenta da trajetória em curso. Por que não se por em parceria para construir o projeto ao invés de o depreciar? Assim, reforço a idéia da necessidade de que, no caso da FEBEM, cada um de nós, sem demora, descruze os braços, procure saber em que pode contribuir e comece a agir*19. Neste processo não cabe personagem central, somos todos protagonistas...

Uma hipótese especial: tais expressões ressentidas revelam mais do que um descontentamento com a gestão, uma vez que o grau de ressentimento mal consegue disfarçar sua hostilidade, quem sabe até impiedade. É possível que as provas documentais apresentadas pela direção da FEBEM sequer tenham sido consideradas porque aquilo que estava posto em julgamento não eram mesmo os fatos mencionados. Desta forma, também a desproporcionalidade das penalidades aplicadas sugere um embate eminentemente político e de oposição a um projeto. Logo, o que teremos não é "uma administradora em conflito com a lei", mas "a lei sendo usada para conflito com a administradora". O lamentável é que, ao invés da utilização dos fóruns específicos para este confronto, utiliza-se de subterfúgios e prerrogativas dos cargos, num indisfarçável jogo político empobrecedor da ética nas relações.

Mas o inconsciente fala e desvela a intencionalidade ressentida de decepcionados narcisos que acham feio o que não são seus espelhos. É assim que, também inconscientemente, o juiz Leoberto que representava o Judiciário no Grupo de Trabalho do reordenamento da FEBEM se despediu no último dia de trabalho dizendo: "Isto corre o risco de dar certo"... Qual o sentido de apostar no fracasso desta gestão ou de temer o seu sucesso? O que estava em jogo nestes ataques era apenas a exclusão de alguns ou de um projeto que deveria ser derrubado? Caberá especialmente ao governo democrático e popular auscultar melhor tais circunstâncias, especialmente em tempos de definições acerca do reordenamento institucional.

Buscando contribuir, chamaria a atenção para algo que até agora foi não foi suficientemente considerado: as conseqüências destes fatos no imaginário institucional. Uma delas é a fragilização da confiança nos gestores, mais uma vez posta sob suspeita, além da revivência de rupturas e confirmação do triunfo de uma lógica autoritária e excludente. Contudo, temos também agora um agravante, que é o fato de termos sido, de certa forma, impotentes para superar os confrontos. E mais do que isto: foi reforçada a idéia do poder como representação e reconhecimento da superioridade, como prêmio de uma competição e resultado de um combate.

De minha parte, o desafio é resistir não apenas à penalização externa, mas também à auto-expiação da culpa (que pode ser o mecanismo mais sutil de exclusão do que a condenação pública). O que acontece quando alguém se nega a pactuar com o ressentimento, isto é, com este destino de submetimento às declarações de inferioridade do outro? Pode-se, quem sabe, demonstrar a impiedade dos acusadores ou até mesmo o exercício da impunidade em benefício pessoal ou corporativo. Mais do que isto: possibilitar um triunfo da dignidade sobre o ressentimento.

Em síntese, apesar de tudo ainda acredito que não se deva sucumbir à triste resignação; ao contrário, é preciso possibilitar a afirmação da vida até no sofrimento. Longe de fazer um drama, trata-se de querer viver mais uma vez e todas as vezes este mesmo instante, esta mesma vida, esta mesma glória, esta mesma dor, esta mesma alegria, esta mesma luta. É assim que, como maior legado que poderia deixar para a história da FEBEM, com seus ricos personagens, fica aqui mais um testemunho de resiliência.

Para finalizar, retomo o título deste texto que nos remete ao dilema de Édipo diante da esfinge a caminho de Tebas. Acredito que a complexidade da dinâmica institucional da FEBEM no governo democrático e popular ainda está longe de ser decifrada. Algumas pistas foram aqui enunciadas como uma singela contribuição. Fica o alerta de que "a bomba relógio" não foi completamente desarmada e, algumas vezes, ela é jogada de forma obscura, como vimos recentemente (e nem sempre o que mais preocupa são os motins de internos e funcionários...).

Mas acredito também num outro enunciado: é preciso devorar mais, no melhor sentido antropofágico proposto pelos modernistas brasileiros. "Mesticizem-se", poderia ser a recomendação final, acentuando na FEBEM e no governo democrático e popular uma das melhores marcas na subjetividade brasileira, que é a abertura à pluralidade. Neste momento em que a instituição sucessora está sendo fecundada, é bom lembrar que o seu partejamento necessita da maior acolhida possível, sem idealizações, mas com a convicção de que o novo está advindo e necessita de múltiplos e renovados cuidados como todas as coisas embrionárias e que ensaiam formas novas. E neste momento especial, esperamos que a FEBEM possa ser mais receptiva (exercendo sua potência de ser afetada) e também mais espontânea (exercitando sua potência de afetar).

A esta FEBEM de braços abertos, aquele abraço!

*18 Termo utilizado no pedido de liminar de afastamento para designar a alegada mentira destas diretoras sobre a existência de uma ala especial para primeiro ingresso de internos numa unidade e também sobre a "mistura" de adolescentes de primeiro ingresso com aqueles de perfil de mais grave.

*19 Idéia expressa por Viviane Senna, numa matéria na Folha de São Paulo, novembro de 1999.

Início

OPINIÃO

 

[Inicial]
[Links] [Ensaios] [Crônicas] [Currículo] [Relatório Azul]
[Projetos Parlamentares] [Discursos selecionados] [Direitos Humanos]