IV - BAHIA Estiveram na Bahia os Deputados Marcos Rolim e Paulo Delgado, acompanhados pela Dra. Gleide Gurgel, pres. Da Comissão de Direitos Humanos da OAB/BA; pela Dra. Ana Montenegro, representante do Fórum Estadual de Direitos Humanos; pelo Deputado estadual Yulo Oiticica, presidente da Comissão de Direitos Humanos da Bahia; por Eduardo Alves de Araújo, coordenador do movimento de usuários de saúde mental da Bahia; por Débora Lopes Dourado, presidente em exercício do Conselho Municipal de Saúde; pela Dra. Célia Barqueiro, representante do núcleo de estudos pela superação dos manicômios; por Delmar Saft, representante do movimento de usuários em saúde mental; por Luana Silveira, representante do Conselho Regional de Psicologia e por Ana Cristina Abreu, representante do Conselho Regional de Serviço Social. Colônia Lopes Rodrigues - pacientes distantes de tudo Na Bahia, a primeira instituição visitada foi o Hospital Colônia Lopes Rodrigues em Feira de Santana. Trata-se de um imenso Hospital Psiquiátrico capaz de abrigar mais de mil pacientes. O projeto arquitetônico dessa Colônia não deixa de ser bonito e interessante. Sua idéia básica é a de uma estrutura de comunidades terapêuticas em forma de células independentes em torno de um núcleo central de serviços. Em cada uma dessas células encontram-se, atualmente, cerca de 100 pacientes. As celúlas são ligadas ao núcleo por caminhos cobertos o que confere à construção uma estrutura raiada. Além das células, há pavilhões de internação cuja existênxcia não parece guardar qualquer relação de pertinência com a concepção arquitetônica original. O mais provável é que tenham sido construídos em período mais recente para responder a demanda crescente por internação psiquiátrica. Como chegamos ao Hospital em um Domingo, não encontramos qualquer pessoa da direção que pudesse nos oferecer informações detalhadas ou dados estatísticos. Muitos dos pacientes aqui caminham nús no interior das células e nos enormes espaços de convivência entre elas. É comum que estes e outros pacientes realizem suas necessidades fisiológicas nessas áreas abertas. Em um dos pavilhões, encontramos um paciente contido mecanicamente em seu leito de forma absolutamente irregular. Ele estava amarrado pelos pulsos e pelos tornozelos. Reclamava dessa condição argumentando com desenvoltura e aparentando absoluta calma. O Deputado Marcos Rolim solicitou ao atendente de enfermagem que o liberasse argumentando que ele não estava em surto e que as amarras contrariavam as normas de contenção mecânica. O pedido foi aceito imediatamente e sem contestação pelo funcionário. A caravana encontrou, ainda, uma paciente presa nas instalações gradeadas de um banheiro no interior de uma das células. Esta mulher, aparentando 30 anos, negra, estava semi nua, sentada no chão do banheiro. Muda, ela não respondeu aos questionamentos que lhe foram feitos. As atendentes de serviço nessa célula informaram aos integrantes da caravana que a paciente costumava ser agressiva e que jogava fezes nos demais internos. Por isso estaria "isolada". Na verdade, ela se encontrava enjaulada. O que pudemos perceber foi a realidade de abandono em que se encontram os internos e a enorme distância oferecida àqueles pacientes frente às possibilidades de ressocialização. Clínica São Paulo - o calabouço de Salvador No início da noite de Domingo, estivemos no centro de Salvador em visita à clínica psiquiátrica São Paulo. Trata-se de uma instituição privada localizada em um prédio absolutamente inadequado. A construção possui vários pisos, corredores, escadas e passagens. Todas elas devidamente trancadas e isoladas umas das outras. Fomos recebido por um médico que, ao ser perguntado pelo número de leitos da instituição, nos ofereceu como resposta que ali deveriam existir "algo entre 200 e 300 leitos." Não foi possível recolher qualquer informação detalhada pela ausência de responsáveis pela administração. A clínica São Paulo é um verdadeiro depósito de doentes mentais. Suas instalações são inaceitáveis e conformam condição de sofrimento aos internos. Foi difícil para nós realizar o trabalho de inspeção pela própria angústia dos pacientes que cercavam os integrantes da caravana implorando por sua liberdade. Na ala feminina, situada em um verdadeiro calabouço, encontramos pacientes despidas em estado de abandono. As condições de higiene são as piores possíveis e o cheiro que emanava em toda a instalação era insuportável. Há evidentemente, um "tratamento" massificado e a prática de abuso medicamentoso. OPINIÃO |