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A UTOPIA DA BONDADE
Hoje, 10 de dezembro, comemora-se mais um aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, aprovada pela ONU em 1948. Síntese utópica de nossos melhores desejos e, ao mesmo tempo, oferta concreta de um paradigma militante pela dignidade, a Declaração permanece, ao final desse século, um desafio. Em algumas nações, porque a julgam inaceitável; para as demais, porque resta uma distância - normalmente imensa - entre os valores proclamados e aqueles efetivamente realizados. A plataforma atual dos Direitos Humanos oferece, com efeito, uma perspectiva radical de luta pela decência neste mundo. Não por acaso, a militância que ela aglutina reinventa a entrega apaixonada que acompanhou todos os grandes movimentos fundadores de nossas civilizações, desde o cristianismo primitivo até o socialismo revolucionário. Ocorre que a luta pelos Direitos Humanos é, primeiramente, uma disposição inteira contra a injustiça; mais precisamente: é a inconformidade diante do mal; inconformidade que já não se contenta consigo mesma, mas que se traduz, em gestos tão simples quanto corajosos, afirmando os direitos que são de todos. Reside aí, nesta universalidade necessária à razão, o vigor dos Direitos Humanos e, ao mesmo tempo, o início de suas dificuldades "práticas". Vigor porque todo aquele que se contrapõe à idéia dos direitos fundamentais não pode sustentar suas posições oferecendo um valor alternativo para vigência "entre todos". Este é, aliás, o motivo pelo qual os adversários dos Direitos Humanos não costumam fundamentar seus pontos de vista. Ou bem a própria necessidade é contornada pela "palavra revelada" - nas diversas versões do fundamentalismo religioso; ou bem a hostilidade frente aos direitos universais será assumida apenas enquanto persistência de uma vocação do sagrado e configura a heresia; pelo segundo, o "outro", que me é diverso e cuja conduta abomino, não pode ser concebido, nem tratado, a partir dos direitos que me definem enquanto humano. O resultado, de qualquer maneira, exige a "demonização" do que me estranha e impõe sua oferenda com sangue, sempre. "Dificuldades práticas" acompanham a exigência de universalização dos direitos porque ainda nos é obscura a idéia de humanidade e porque as sociedades que temos banalizam a dor e promovem a intolerância. Mais uma razão para que sejamos tão anacrônicos quanto a justiça e a generosidade. E que nossa luta, pelo que há de doçura em sua aposta, seja o sinônimo mais belo da palavra bondade. Marcos Rolim - 27/03/98 OPINIÃO
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