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Caro Santana:

"Avalanche, queres me levar em tua queda?"

Baudelaire

Eu poderia calar, é verdade. Talvez, fosse até prudente que o fizesse. Sou, entretanto, a única pessoa obrigada a conviver comigo para sempre e não gostaria de ter a companhia de um omisso ou, o que seria pior, de um covarde. Minha admiração por ti nunca foi fácil, mas sempre foi verdadeira. Além do jornalista, interessava-me sobretudo o ser humano tão complexo quanto sensível que se abriga antes da tua imagem. Alguém capaz de recusar os apelos esculpidos pelo senso comum e, nos surpreendendo, descobrir facetas inéditas na realidade. Teu texto deste último domingo, 30/03 - "Quebra de princípio" , entretanto, não pode ser tratado como um episódio infeliz, nem relevado como uma entre outras opiniões polêmicas. Estamos diante de um acontecimento de largas repercussões: o cronista mais estimado do estado, o jornalista genial de todos os dias, altera suas convicções e passa a sustentar a introdução da pena de morte no Brasil. Poderíamos debater longamente sobre o tema, mas este não é o caso. Senão por outro motivo, pelo fato de que não ofereceste qualquer argumento sério ao debate. Não te fizeste, por certo, a pergunta de Baudelaire que separei como epígrafe, mas, para todos os efeitos, tua resposta foi: - "pois então tens o meu consentimento". Diante do mal radical e da série de crimes que atormentam nossa época, dividiste com o público, tão somente, o teu horror e o teu cansaço. Natural, então, que a "solução" proposta seja anunciada pela vergonha, como o fizeste. Engana-te, todavia, se imaginas que tua posição possa ser "isolada" assepticamente do contexto cultural e político no qual ela se insere ativamente. Teu posicionamento constitui e reforça as tendências mais dramáticas do presente e, entre elas, a crença no poder e na legitimidade da própria violência. Estejas certo de que tua crônica já não é mais apenas uma crônica. Para alguns, ela transformou-se em um estandarte; para outros tantos, em uma sentença. Certa vez, diante de um episódio de extraordinária brutalidade que envolveu a execução sumária de uma pessoa detida por um policial, escreveste que era preciso identificar os responsáveis, também, entre aqueles que clamavam pela violência. Apontavas, com acerto, para a mais lamentável das condições que antecedem e preparam crimes do tipo: a aceitação de parcelas significativas da opinião pública. Por doloroso que seja te dizer isto, penso que teu texto redefine tua posição de forma irônica e passa a te servir uma parcela da responsabilidade pela barbárie, algo assim para todas as manhãs como aquele prato triturado e amargo de Almeria de que nos falou Neruda. Ao contrário de tua tradição, nada há de "anormal" no que escreveste, compreenda-me. Foste completamente "normal" sem se dar conta de que a doença própria de nossa época consiste precisamente no que é normal. Perdoa-me, Santana, se sou rigoroso na crítica. Nós que te amamos temos este direito.

 

Marcos Rolim - 31/03/97

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