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CEGUEIRA POLÍTICA

Os militantes que participam dos movimentos sociais no Brasil devem perceber que encontram-se diante de um grave desafio: ou bem organizam-se no sentido de impedir que atos de violência passem a caracterizar as manifestações de rua ou bem estarão oferecendo à hipótese repressiva sua condição de legitimidade. Os fatos recentes envolvendo o governador de São Paulo, Mário Covas, agredido em duas oportunidades em meio à greve dos professores, ofereceram à opinião pública os termos exatos de uma cegueira política que, ao que tudo indica, ainda não foi percebida como tal. Ora, se os movimentos sociais possuem alguma chance de vitória em seus objetivos específicos essa chance depende, sobretudo, do apoio que o conjunto da sociedade possa lhe oferecer. Será mesmo possível que alguém imagine encontrar apoio para atos de imbecilidade como aqueles mostrados pelas câmaras de TV onde um governador é violado em sua integridade física por manifestantes? A polícia de São Paulo, alguns dias antes, é verdade, havia reprimido, sem qualquer motivo relevante, uma passeata e ferido manifestantes. Por acaso aquela ocorrência justificaria a agressão ao governador? Aliás, há alguma circunstância que justifique apedrejar alguém, quem quer que seja?

É possível, imagino, que alguns pequeno-burgueses bem nutridos e de poucas luzes - deformados pela blindagem característica oferecida à razão pelas ideologias - pensem que atos dessa natureza assinalem momentos de "radicalização da luta", palavras com as quais costumam emprestar apoio acovardado à irresponsabilidade. É possível, também, que a extrema direita infiltre ativistas em meio às multidões para que ali desenvolvam seu trabalho de provocação. Aliás, o que a esquerda já deveria ter aprendido é que, nessa parte da América, todos os processos de ruptura com a ordem democrática foram construídos pela direita. Se não fosse por motivos mais nobres, devería-se convir, então, que o respeito à Lei e a valorização da democracia deveriam ser, antes de mais nada, compromissos irrenunciáveis da esquerda.

O fato é que resiste-se a essa conclusão e muitos são os militantes de esquerda que, ainda hoje, reproduzem de forma bastante pueril suas pretensões radicais. Depois dos episódios com Mário Covas, depois dos ovos sobre José Serra e da destruição do relógio da Globo em Porto Alegre, lembrei de uma passagem de Fernando Gabeira em "O Que é isso Companheiro?": lá pelas tantas um grupo de ativistas se reúnem para um balanço das atividades mais recentes e, em meio à euforia de todos, assinala-se que um novo "salto de qualidade" havia se processado no movimento: aquela tarde eles haviam quebrado os vidros do Citibank (!) Vivemos situações do mesmo tipo hoje. A incapacidade política, a ausência de imaginação e, sobretudo, a absoluta incapacidade de reflexão - entenda-se: pensamento crítico - abre espaço para que a violência seja apresentada como porta voz de certos grupos. Há nisto, até, uma determinada lógica: como nada têm a dizer escolhem a violência porque sabem que é muda.

Marcos Rolim - 06-06-2000

 

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