VOCÊ TEM UM ESCAFANDRO?
Realizamos, entre os dias 14 e 24 de junho, a primeira Caravana Nacional de Direitos Humanos que teve como eixo temático a realidade manicomial brasileira. Visitamos clínicas e hospitais psiquiátricos, públicos e privados, em sete estados da federação: Goiás, Amazonas, Pernambuco, Bahia, Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo. Ao todo, foram 20 instituições em 14 cidades. Os resultados dessa maratona estarão sintetizados no relatório que entregarei ao Ministro José Serra e ao Ministério Público esta semana. É difícil traduzir as situações que encontramos. O que vimos nos ofereceu o conjunto de algumas entre as mais impressionantes imagens sobre a miséria humana neste país. Em Goiânia, um determinado saber psiquiátrico sustenta o emprego corriqueiro da eletroconvulsoterapia (ECT), prática mais conhecida como eletrochoque. Ao contrário do que se imagina, ela continua bastante comum nas "melhores casas do ramo". No Rio de Janeiro, a Clinica Dr. Eiras situada no município de Paracambi emprega o ECT com a explícita orientação de não utilizar anestesia. Segundo documento da instituição a que tivemos acesso, a anestesia seria "contraproducente". Ainda em Goiânia, identificamos pelo menos cinco casos neste ano de indicações de neurocirurgia para pacientes com "desvio de conduta". Encontramos um desses pacientes no qual se fez a cirurgia, um jovem de menos de 30 anos, que permanecia indiferente a nossa abordagem em seu leito e, frequentemente, se jogava ao chão para lambê-lo. No município de Itamaracá, em Pernambuco, inspecionamos o Manicômio Judiciário, uma instituição para 70 leitos onde estavam 330 pacientes. Vários deles isolados em celas completamente nus. Segundo a médica responsável, esses pacientes apresentavam risco de suicídio. Desnudá-los e permitir que dormissem sobre a laje seria a "única forma" de preservar suas vidas. Incrível! Ao invés da observação, o desnudamento, a humilhação e a imposição de uma carga adicional de sofrimento. Nos pavilhões desse manicômio, os banheiros não possuíam água e estavam fétidos. Em várias celas, os pacientes presos conviviam com seus próprios dejetos. Em Feira de Santana, na Bahia, conhecemos um imenso Hospital Psiquiátrico (Colônia Lopes Rodrigues) onde estão mais de mil internos. Descobri uma mulher muda e nua enjaulada no banheiro e deixada lá porque era agressiva com os demais. Sua aparência lembrava uma figura pré-histórica, meio humana, meio animal. No centro de Salvador, em uma Clínica de nome "São Paulo", os pacientes nos agarravam solicitando que os tirássemos dali naquele momento. Não há como esquecer suas expressões de pavor e súplica. Estivemos em instituições históricas como o Hospital Mantiqueira em Barbacena (MG) e o complexo do Juqueri em Franco da Rocha (SP). Por todos os lugares o mesmo abandono, o mesmo abuso medicamentoso, as mesmas queixas dos pacientes, a mesma dor, a infinita dor. Desamarramos alguns pacientes contidos mecanicamente em seus leitos sob o olhar perplexo de atendentes, forçamos a liberação de outros que estavam com alta médica, examinamos prontuários, conversamos com técnicos e pacientes, recolhemos histórias, fotografamos. Tudo isso, talvez, para insistir na mesma frase da precursora Nise da Silveira, uma psiquiatra que não se curvou ao saber tradicional e que costumava dizer: - "para trabalhar com doentes mentais era preciso usar um escafandro, descer ao fundo do oceano e voltar de lá com alguém". Os manicômios brasileiros permanecem esse oceano. A pergunta que nossa caravana deixa aos profissionais da área é: vocês têm um escafandro? Marcos Rolim - 26-06-2000 |