OS HOMOSSEXUAIS E O PAPA Sinto muito, mas a declaração do Papa atribuindo aos homossexuais a condição de serem, em si mesmos, "ofensivos aos cristãos" deveria ser esculpida na lápide das bobagens perigosas ditas nesse século. Dirigindo-se a uma multidão reunida no Vaticano, o Sumo Pontífice reafirmou a postura intolerante de sua Igreja frente aos homossexuais, o que deveria envergonhar a todos, inclusive aos católicos. Talvez sejam necessários algumas centenas de anos para que um pedido de perdão seja feito pelo Vaticano aos gays e lésbicas do mundo inteiro. Até lá, posições conservadoras e preconceituosas como a de João Paulo II terão sido bastante funcionais para que se legitime a exclusão daqueles que mantém orientação sexual distinta da maioria. Essa exclusão não é apenas de ordem cultural e não se manifesta, só, pela discriminação odiosa enfrentada pelos homossexuais em grande parte do mundo. Ela é o começo da homofobia que tem se manifestado como vocação criminosa inclusive no Brasil onde, a cada três dias, um homossexual é assassinado pelo fato de ser homossexual. Diante desse fenômeno de violência contemporânea, as declarações do Papa expressam mais do que uma aguda incompreensão. Elas oferecem uma "senha" pela qual a própria violência se reproduz e são, simplesmente, inaceitáveis. Para o Papa, o homossexualismo "é contrário à natureza". É fantástico! O Sumo Pontífice poderia acrescentar, se desejasse, que o sexo oral ou a penicilina são contrário à natureza. E daí? Por acaso os seres humanos não se distinguem, precisamente, dos demais seres naturais pelo fato de serem capazes de criarem para si mesmos uma natureza propriamente humana? Nós somos esses seres especiais, filhos da cultura, que impregnamos as coisas com significações imaginárias. Inventamos sociedades e as reconstruímos a cada momento argüindo as próprias leis que fizemos; decodificamos nosso genoma; descobrimos a evolução das espécies; generalizamos a idéia de direito e aprendemos, sobretudo, a estimar a diferença. Os que se definem pela democracia, sabem que nada nela é "natural" e que não há verdade possível além daquelas que vamos construindo, para logo ali, superar. Os adeptos do dogma, por contraste, foram possuídos pela idéia de verdade. Sua existência confunde-se com o juízo consolidado. Ora, para a tradição teológica da qual o Vaticano é tributário, é o prazer sexual que precisa ser interditado como pecaminoso. As relações sexuais entre os humanos só poderiam encontrar justificação em uma finalidade reprodutiva. Ora, como 99% das relações sexuais no planeta estão orientadas exclusivamente pela busca do prazer, percebe-se que a condenação aos homossexuais é, apenas, a parte visível de uma imensa arquitetura moral pela qual todos nós somos suspeitos. Essa arquitetura, cujas origens remontam à idade média, está destinada a saudar o sofrimento e ver no próprio prazer os contornos inconfundíveis do capeta. Sorte nossa que não se façam mais fogueiras em praça pública. Sobre isso, aliás, a Igreja já pediu desculpas, o que não deixou de ser importante. O problema é que o gesto não adiantou muito para os carbonizados, não é mesmo? Marcos Rolim - 10-07-2000 |