Para contrastar a violência
Há uma determinada saturação em torno do fenômeno moderno da violência. A própria palavra, pelo uso intensivo e descriterioso que dela se faz, adquire a condição de uma expressão inflacionada por sentidos normalmente não explicitados. Parte-se do pressuposto de que ao se dizer "violência" todos saibam do que se trata. A hiper-densidade do conceito, entretanto, não autoriza este uso incontroverso cuja realidade é sua aparência. Da forma como estamos, tudo pode merecer a qualificação de "violento"; inclusive o discurso. Ora, se "tudo é violência" ou pode sê-lo, então nada é violência especificamente. Percebe-se, assim, como a indefinição pode produzir, exatamente, a diluição do conceito com o qual se pretende indicar uma prática determinada. Mas, afinal, que prática é essa? Entendo que deve merecer a qualificação de "violenta" toda e qualquer prática responsável pela subtração arbitrária de direitos. A subtração consensuada de direitos em um Estado democrático, por evidente, significará sempre um ato de força, mas não uma prática violenta; pelo que retomo em outro plano a proposição fecunda de Hannah Arendt ao distinguir os fenômenos da "força" e da "violência". A violência, adquire, assim, mais claramente, a característica de um conceito datado, correspondente à negação de um aspecto civilizatório fundamental, a saber: a emergência da própria idéia de "direitos". Se o caminho que sugiro puder ser aceito, temos desde logo uma visão determinada e, ao mesmo tempo, abrangente a respeito das práticas violentas. Insuficiente para que se perceba, entretanto, o quanto nosso país é violento. Ocorre que a violência entre nós encontra-se, ainda, em grande parte, encoberta pelo que há de ofuscante no fenômeno moderno da criminalidade. O que pode ser observado inclusive pelo fato de que as duas noções -violência e criminalidade- apareçam frequentemente como sinônimas quando deveriam denotar fenômenos substancialmente distintos. A reação verificada hoje em largos setores da opinião pública de repúdio à violência e as campanhas em curso destinadas a sensibilizar o conjunto da sociedade em torno dos desafios para a reprodução de uma cultura de paz devem ser saudadas e estimuladas por todos, particularmente pelos militantes em Direitos Humanos. Não seria demais, entretanto, assinalar que o "espírito objetivo" dessa resposta pública é a crescente "sensação de insegurança" compartilhada nos centros urbanos o que confere aos próprios movimentos um determinado limite que importa ultrapassar. Para contrastar a violência, afinal, é preciso percebê-la fundamentalmente ali onde ela sempre esteve, via de regra longe das manchetes, construindo seus caminhos de dor em meio à fome, à incultura , à discriminação e à intolerância. Tornar evidente o que há de violento e inaceitável na própria estrutura de uma sociedade fraturada primordialmente entre os "mundos" da exclusão e da inclusão parece ser a tarefa mais urgente desse fim de século. Um desafio que o próprio alarido em torno da criminalidade pode obscurecer ou adiar, se não estivermos atentos.
Marcos Rolim - 17-07-2000 |