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RECADO AOS CÉTICOS

Vive-se no Brasil um desencanto já prolongado com a atividade política o que se torna mais agudo em épocas de campanha eleitoral. Este é o momento onde se ouve com mais frequência a expressão da crônica descrença que caracteriza parte do eleitorado diante daquilo que se lhe afigura como o "mundo político". Você, por certo, já ouviu alguém afirmar - não raro em meio à concordância geral - o quanto "detesta" a política, porque deverá anular seu voto, etc. Pois bem, deve-se dizer com todas as palavras que não há qualquer inteligência nesse tipo de reação despolitizada, nem se afirma pelo cinismo uma perspectiva moral desejável. Pelo contrário, a negação da política costuma evidenciar, além de uma determinada incapacidade cognitiva, um renovado egoísmo por tudo avesso ao interesse público.

Os que "não gostam" de política estão condenados a serem governados por aqueles que gostam. Por essa razão, preliminarmente, os que manifestam horror à política abdicam do seu papel de sujeitos; vale dizer: negam a si próprios sua condição cidadã. Em segundo lugar, por conceberem a atividade pública como um espaço para o seu repúdio, os detratores da política colocam-se comodamente situados para além das opções reais em disputa. Assim, procuram assegurar as condições para não prestar contas das opções políticas que ajudaram a construir ao longo de toda suas vidas. Alguns deles, por exemplo, foram distintos defensores da ditadura militar no Brasil; ao longo de muitos anos, receberam todo o tipo de vantagens por serem homens "de confiança" de um regime que torturou e matou. Hoje, pode-se ouvir gente desta estirpe condenando genericamente "os políticos". Outros, simplesmente, orgulham-se de sua ignorância e aprontam-se para escolher, entre as alternativas postas, alguma entre as piores. Esta é a turma que não gosta de política, nem dos políticos, mas adora um favorzinho. Seu voto, por óbvio, irá para aquele candidato que lhe oferecer uma vantagem maior, um benefício qualquer. Gente que vota assim não tem idéia do mal que faz ao Brasil.

Na verdade, a corrupção real que existe na política brasileira começa na campanha eleitoral quando os pilantras das mais variadas siglas passam a distribuir ternos de camisetas e cestas básicas nas vilas e quando os otários na outra ponta asseguram seu voto por conta desse comércio indigno. Mais do que nunca é preciso que se afirme razões políticas para uma escolha política. Que os céticos percebam, finalmente, que sua desilusão com a política é proporcional à distância que mantém diante dos assuntos públicos e que a aversão que manifestam à atividade política expressa, na verdade, uma incapacidade -muitas vezes orgulhosa- de escolher bem.

Marcos Rolim - 22-08-2000

 

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