|
CASA TOMADA "Casa Tomada" é o nome de um dos contos mais célebres de Júlio Cortázar inserido na coletânea fascinante de "Bestiário", uma obra prima. O texto descreve o que sucede a Irene e seu irmão, o narrador da história, que se haviam exilado em uma ampla casa com vários cômodos durante anos a fio. Ele envolto com literatura francesa e filatelia; ela dedicada compulsivamente ao tricô. Em um belo dia ouvem um ruído e murmúrios dentro da casa. Se dão conta de que a parte dos fundos havia sido tomada. Fecham, então, uma pesada porta e isolam a área. Seu cotidiano segue inalterado até que, dias depois, novos ruídos e murmúrios lhes oferecem a certeza de que outra parte da casa fora ocupada. Irene e seu irmão decidem, então, voltar à rua. Fecham a porta e jogam as chaves no bueiro. Alguém poderia querer roubar e entrar na casa e isto não ficaria bem, ainda mais com a casa tomada, assinala o narrador. A história fantástica se presta a inúmeras alegorias. O parlamento gaúcho foi ocupado e uma sessão legislativa foi interrompida por manifestantes que protestavam contra projetos de caráter anti-popular. O episódio, analisado em si mesmo, não se sustenta. Não há como justificá-lo com base em um princípio democrático e nem, tampouco, desconhecer a lógica política que ele autoriza. A ocorrência da ocupação produz um inevitável deslocamento do debate e da agenda política e traz para a primeira cena uma polarização bastante favorável aos "defensores da ordem" que sabemos injusta e opressora. A resultante era bastante previsível e foi desconsiderada pelos manifestantes o que caracteriza um erro político básico. O problema, entretanto, é bem mais complexo e não pode se prestar às simplificações tão caras à mídia. A Assembléia Legislativa vem sendo ocupada aos poucos por outras condutas usurpadoras de sua soberania, diante das quais deveríamos, todos, nos colocar em estado de alerta. A primeira delas é o servilismo da maioria que oferece sustentação parlamentar ao governo e que tem transformado o Poder Legislativo em uma mera repartição burocrática vocacionada à homologação das decisões formuladas no Piratini. A segunda destas condutas é o autoritarismo revelado pela supressão do debate e da negociação com a imposição sumária e irrecorrível de uma lógica matemática em tudo avessa à política. A terceiras destas condutas invasoras é o desrespeito e a empáfia do senhor governador do estado habituado a declarações provocadoras e irresponsáveis diante da oposição. Fenômenos estes rigorosamente recepcionados de forma acrítica e conivente por largos setores da imprensa. A maioria dos senhores deputados estaduais afinados com o governo deveria dar-se conta de que não possuem o direito de habitar a Casa do Povo para tricotar ou ocupar-se com filatelia e literatura francesa. É preciso, em síntese, retomar a vocação democrática do parlamento e ouvir os murmúrios das ruas. A menos que estejam dispostos a desocupar a Casa e jogar as chaves no bueiro. Marcos Rolim - 30/07/97 OPINIÃO |