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A TELA DO HORROR

A semana que passou foi marcada por um acontecimento impressionante na TV brasileira. No dia 23, o Programa do Ratinho, do SBT, levou ao ar cenas onde uma menina de três anos é barbaramente torturada. O bandido, responsável pelo espancamento, gravou as cenas para enviá-la ao pai da menina que, segundo consta, teria sido seu parceiro em uma quadrilha e o teria delatado. Confesso que não assisti às cenas. Primeiro, porque assisto muito pouco à TV; segundo, porque não vejo programas como o de Ratinho. De qualquer maneira, se o desejasse, me teria sido possível ver a fita. Decidi, entretanto, não fazê-lo. A simples descrição das cenas já me é insuportável. Conversei com pessoas que assistiram à barbaridade toda e que tiveram crises nervosas. Uma amiga, teve ânsia de vômito.

Penso que estamos diante de um fato que, de alguma forma, divide águas na história da TV brasileira e que nos obriga a agir com rapidez. Hannah Arendt costumava afirmar que o totalitarismo constituía o principal fenômeno político desse século e que, após os campos de concentração, jamais poderíamos conceber a política da mesma forma. Penso que após as cenas de uma criança sendo torturada, não podemos mais conceber nosso país - e por decorrência, nós mesmos - da mesma forma. Algo de substancial se alterou com as imagens divulgadas em um meio de comunicação de massas.

As crianças nos oferecem a imagem mais verdadeira daquilo que podemos nomear como "o sagrado". Todo o sagrado é humano e corresponde à idéia que temos daquilo que tomamos como intransponível do ponto de vista ético. O corpo de uma criança nos oferece, com uma evidência ainda maior do que o corpo de um ser humano genérico, essa idéia de limite sem o que a própria civilização seria inconcebível. Por isso, não se viola o corpo de uma criança sem profaná-lo e, se o fazemos, assassinamos a idéia de humanidade que nos define.

Pensei, primeiramente, na criança vitimada. Onde estaria? Estaria viva? Entramos em contato com a juíza da infância e da juventude de Curitiba que nos assegurou que a menina encontra-se em uma casa de abrigo, que está sendo objeto de todos os cuidados, especialmente psicológicos. Pensei, então, no agressor e me perguntei sobre que ser humano é esse capaz de profanar cruelmente o corpo de uma criança. A pergunta é difícil porque nos obriga a inquirir, também, sobre que tipo de sociedade é essa que abriga e em larga medida forma um torturador de crianças. Ele está preso por outros crimes. Responderá a outro processo e, se não for morto pelos demais presos, passará o resto de sua vida encarcerado. Pensei, então, no apresentador do programa. Por que razão ele tomou a decisão de exibir as cenas? A simples exibição delas não constitui, de fato, uma nova violação dos direitos daquela criança? Pois bem, penso que estamos diante de uma das mais sórdidas e desleais maneiras de se capturar audiência na TV. Ratinho comanda um programa necrófilo e absolutamente imoral. Em sua audiência, estimula-se a perversão, o ódio e o preconceito. Chegamos ao fundo do poço. A idéia que temos sustentado da necessidade de um Código de Ética para a programação televisiva nunca foi tão atual e já começa a obter a simpatia de outros deputados. É preciso fazer algo contra o horror contemporâneo da violação dos Direitos Humanos e, ao mesmo tempo, evitar que a TV seja "sócia" dessa barbárie.

Marcos Rolim - 30-10-2000

 

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