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DARWIN

Terminei, no último dia do século passado, a leitura de uma obra formidável: "Darwin, a vida de um evolucionista atormentado". (Geração Editorial, 796 pág.) Trata-se da biografia insuperável sobre o extraordinário cientista britânico Charles Darwin escrita por Adrian Desmond e James Moore. Darwin foi, por certo, uma das mentes mais brilhantes em toda a história da humanidade. Seu pensamento mudou o mundo com uma força tão avassaladora que qualquer palavra dita em sua homenagem seria insuficiente. Isso já se sabia. O que o livro nos oferece de novo é o retrato minucioso e surpreendente de um homem e seu tempo; suas aflições e angústias diante das próprias descobertas que fazia e sua dedicação apaixonada pela verdade.

Filho de uma família ilustre e liberal, compremetida com a ciência e o progresso - seu avô Erasmus havia sido um médico notável, biólogo e poeta - Darwin fora formado em uma consistente tradição anglicana. Após desistir do estudo da medicina em Edimburgo; Darwin estudara em Cambridge preparando-se para uma função eclesiástica. Essa seria uma forma nobre de dedicar-se às ciências naturais, sua inclinação verdadeira. Antes disso, porém, o acaso o coloca, aos 22 anos, dentro do "Beagle", o navio da marinha inglesa que realiza a circunavegação em uma viagem que dura 5 anos. (a propósito, Darwin esteve no Brasil e seus comentários são interessantíssimos) Com as observações realizadas durante a viagem, Darwin começa a esboçar sua teoria da evolução. Após ter firmado suas posições teóricas em um trabalho exaustivo que lhe consumiu anos de estudos, Darwin decide não apresentar suas conclusões ao público. Sua obra mais célebre , "A Origem das Espécies" teria de aguardar 20 anos para ser encaminhada à publicação.

Antes disso, Darwin já havia obtido reconhecimento entre seus pares e gozava, para todos os efeitos, do prestígio devido a um cavalheiro. Temia, não obstante, que as reações a sua teoria o fulminassem. A idéia da evolução contrariava frontalmente as perspectivas creacionistas propugnadas pela Igreja. Defendê-la, equivalia a uma afronta. "É como confessar um crime" , essas foram as suas palavras quando revelou ao mundo - em plena era vitoriana - que nós, humanos, descendemos de moluscos hermafroditas e acéfalos.

Não sei o que é ensinado atualmente nas aulas de biologia em nossas escolas. Por certo não chegaremos jamais à situação de alguns condados norteamericanos onde de proíbe o ensino do evolucionismo e se oferece às crianças o libro do Gênesis. Mas, possivelmente, Darwin seja, em nossas aulas, pouco mais que um nome a ser decorado. Se for assim, estamos diante de um sinal certeiro de miséria cultural. Penso que a trajetória do grande naturalista ingês tem muito a nos ensinar. Algo a respeito da determinação e da seriedade, em primeiro lugar; mas, sobretudo, algo sobre uma paixão pela verdade que não se detém mesmo diante das próprias convicções. Querem um bom livro para começar o século XXI? Leiam sobre a vida de um gigante do século XIX; Darwin, aquele para quem K.Marx dedicou "O Capital".

Marcos Rolim - 10-12-2000

 

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