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ESTUPIDEZ

José Luís Zensque e Maria da Conceição Castelo Branco moravam no Distrito Federal, no setor leste do Gama. Tinham uma filha, Michele, de 5 anos. José Luís havia guardado, por 30 anos, como lembrança do pai, uma Beretta semi-automática, 7.65 mm. Era uma arma bonita, pequena, que ele mantinha carregada no armário do quarto de casal. A região onde moravam impressionava José Luís porque ali os assaltos eram comuns. Espalhou, então, pela vizinhança, que possuía uma arma e que não vacilaria em atirar no primeiro que se aventurasse a pular o muro. Há dois anos atrás, no dia 02 de maio, a babá - que tinha apenas 12 anos - encontrou a arma no armário. Parecia de brinquedo. Não era. A bala fez um furinho pequeno bem abaixo do olho direito de Michele e mergulhou em seu cérebro de onde só saiu após o trabalho paciente do médico legista. A tragédia, relatada em matéria de José Resende Júnior e Leonardo Cavalcanti da equipe do Correio Brasiliense, é apenas uma história entre milhares de outras que revelam uma das faces mais toleradas da estupidez contemporânea: a posse de armas de fogo por cidadãos comuns.

O último senso do IBGE - que contou os brasileiros vivos - contou também os mortos por disparos. A cada ano, cerca de 1.200 pessoas - normalmente crianças e adolescentes - morrem por conta de disparos acidentais. 45 mil pessoas morrem no Brasil, anualmente, alvejadas por armas de fogo. O número é, quase que naturalmente, associado ao "avanço da criminalidade". Entretanto, de acordo com pesquisa realizada pelo Sistema Estadual de Análise de Dados de SP (Seade), nada menos do que 6 em cada 10 homicídios são cometidos não por bandidos, mas por cidadãos comuns e por motivos fúteis que vão desde uma briga em um bar até uma discussão no trânsito. Possuir uma arma em casa, então, ou portá-la, agrega riscos muito maiores do que as eventuais "garantias de segurança." Arthur Kellerman e Don Reay, em estudo publicado em 1986, já haviam demonstrado que para cada ocorrência em que uma arma doméstica cumpre a função de matar alguém que tentava assaltar a casa, há 43 outras ocorrências onde a arma doméstica mata alguém que mora nessa casa ou que a visita. Ou seja: uma arma doméstica tem 43 vezes mais chances de matar um morador do que um invasor (!)

Ah -dizem- "mas de nada adiantaria proibir a venda de armas aos cidadãos de bem pois os bandidos não compram armas em loja". Essa frase estúpida, repetida milhares de vezes para que se mantenha a estupidez, não resiste às estatísticas produzidas pela própria polícia brasileira. No Rio de Janeiro, mais de 25% das armas apreendidas em poder de bandidos foram compradas legalmente e, depois, roubadas ou revendidas. Só em São Paulo, há 70 mil armas registradas nos últimos 5 anos que foram parar nas mãos de bandidos por conta de furtos e roubos. A turminha daquela frase estúpida, então, é também responsável pelo armamento da "galera do mal", ou não?

José Luis, o pai de Michele, nunca mais quis ter uma arma de fogo. Maria da Conceição, a mãe de Michele, é a favor do projeto que proíbe a venda de armas. Claro, as pessoas mudam de opinião. Mas será preciso que, para isso, sofram tanto?

Marcos Rolim - 11-12-2000

 

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