A MONTANHA MÁGICA
Thomas Mann foi, sem dúvida, um dos maiores romancistas do século XX. Apreciador de sua obra, adiei por muitos anos a leitura de um dos seus livros mais célebres, "A Montanha Mágica". (Nova Fronteira, 801 páginas). Semana passada, devorei-o. Toda a história se passa nas montanhas geladas de Davos, Suíça, em um sanatório para pacientes tuberculosos, nos anos que antecedem a primeira guerra mundial. Hans Castorp, o protagonista, dirige-se ao sanatório para visitar um primo. Sua intenção era a de passar três semanas no local, em férias. Lá, descobre que também é portador da doença e fica internado por longos 7 anos. A trama desenvolve-se a partir de uma imensa metáfora sobre aquela que é a busca essencial, a busca pelo sentido da existência. Nos contatos com os demais pacientes e nas relações que vai construindo, Castorp conhece dois personagens antípodas e fascinantes: Settembrini e Naphta. Settembrini, um humanista clássico; literato e extraordinariamente culto, deposita sua fé incondicional na razão, na ciência e no progresso. Italiano, neto de um carbonário e membro da maçonaria, Settembrini despreza as superstições, o clero e as monarquias, Seu amigo e adversário ideológico, Naptha, de origem judaica e convertido ao catolicismo, é jesuíta, também dono de vasta bagagem cultural. Naptha ataca o liberalismo e denuncia a sociedade capitalista como uma estrutura desalmada; o faz, entretanto, em nome das tradições monárquicas sustentando a pena de morte, legitimando a tortura e apresentando, diante da idéia de morte, uma posição que mistura fascínio e reverência. Os debates filosóficos que os dois travam antecipam, de alguma forma, as opções com as quais a humanidade haveria de se encontrar diante do nazismo logo depois. Falta algo de substancial às posições de Settembrini - que alguns analistas imaginaram se tratar de uma caricatura do filósofo marxista húngaro G. Lukács. A expectativa incondicional em favor da razão, por exemplo, não pode mais ser sustentada em termos estritamente iluministas. Desde a contribuição da "Escola de Frankfurt" (Adorno, Horkheimer, Habermas, etc) , pelo menos, é preciso incorporar a idéia de que a razão, em sua dimensão instrumental, foi capaz de erguer, à direita e à esquerda. fornos crematórios e Gulags. O fato é que nossas simpatias não podem deixar de se inclinar diante de posições de Settembrini quando contrastadas com o rancor de Naphta. De alguma maneira, penso que Settembrini estará representado em Porto Alegre no Fórum Social Mundial no final desse mês. Naphta, por seu turno, se voltasse a Davos, não se sentiria deslocado no encontro das oligarquias mundiais. O Fórum representa, possivelmente, o encontro mais importante daqueles que continuam em busca de um sentido - o que equivale a afirmar que não se sentem representados pelos sentidos já construídos pelas sociedades que recebemos como herança. Mais uma razão, eu diria, para que os herdeiros angustiados de Settembrini estejam em Porto Alegre.
Marcos Rolim - 22-01-2001 |