ELOGIO À DÚVIDA
Há uma frase de Nietzsche que diz, mais ou menos, o seguinte: "A inimiga da verdade não é a mentira, é a convicção". Trata-se de uma frase perturbadora e genial, como perturbador e genial o soube ser F. Nietzsche. No sábado à noite, após um animado jantar com Zé Dirceu e Mercadante em Porto Alegre, afirmei que deveríamos inscrevê-la em nossa bandeira. Tive a impressão que concordaram. A esquerda, penso, não têm idéia do que perde diante de suas certezas. O próprio Fórum Social Mundial, evento de extraordinária importância, debateu-se diante de duas posturas: de um lado, os que transformaram seus juízos consolidados em um porto seguro; de outro, os que preferem o mar revolto e sabem-se marinheiros acossados pelas tempestades do tempo. O problema é que não temos mais tempo a perder com os que encontraram as respostas, este é o fato. Deveríamos nos relacionar, primordialmente, com aqueles que passaram a renovar suas perguntas e que, por isso mesmo, descobrem-se insatisfeitos. A turma que fala desde a posição dos que "descobriram" costuma-se levar muito a sério. Não se surpreendem mais, porque não esperam nada diverso daquilo que imaginam já saber. O que falam é sempre aquilo que já foi dito e, por isso mesmo, são extraordinariamente previsíveis e, não raras vezes, simplesmente chatos. Com o perdão da sinceridade, os marxistas puxam a fila. Tudo para eles resume-se à eterna e monótona disputa entre capital e trabalho. Em uma das oficinas que participei no Fórum, debati com um marxista para quem a violência no mundo um subproduto da dinâmica do capital. Se fosse assim, afirmei, não haveria como enfrenta-la sem eliminar o capital e sua "dinâmica". Conclusão bastante óbvia que evidencia como o aparente radicalismo do discurso encobre, apenas, a vocação à impotência política. Ora, é possível acabar com a tortura, enfrentar a discriminação racial, a violência contra as mulheres, as crianças, etc. mesmo no âmbito das sociedades desiguais e injustas como a nossa. Não fazê-lo equivale a se acumpliciar com a violência. O que não é outra forma de se afirmar a "teoria" ao custo da danação das pessoas que sofrem. Como se não bastasse, somos herdeiros de dezenas de experiências concretas de eliminação da "dinâmica do capital" que redundaram, tão somente, em sociedades mais violentas e discriminatórias ainda. Felizmente, muitos entre nós já romperam com suas certezas. Preferimos as dúvidas. Elas nos fazem pensar e nos mobilizam em direção aos desafios do presente.
Marcos Rolim - 29-01-2001 |