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CLONES As descobertas científicas na área da biotecnologia alcançaram com as recentes experiências do dr. Ian Wilmut, na Escócia, um ponto explosivo. Sabe-se, agora, após a apresentação de uma ovelha de nome "Dolly" à opinião pública mundial, que a clonagem de seres humanos é uma possibilidade iminente. No mundo inteiro, descobre-se a atualidade de uma interface, até então menosprezada, entre ciência e ética e pergunta-se: é legítimo ou aceitável que as experiências prossigam até a "invenção" de um ser humano, réplica genética idêntica de outro, para cuja concepção não seja sequer necessário a concorrência de um espermatozóide? A questão é bem mais difícil do que parece a primeira vista e, com efeito, sintetiza impasses de natureza moral que não podem ser desconsiderados. Antes mesmo da experiência realizada na Escócia, a realidade das modernas técnicas de reprodução assistida, especialmente a fertilização in vitro, já estavam a propor questões morais e jurídicas surpreendentes. De volta de São Paulo neste domingo, conversava sobre o tema com o dr. Ronald Bossemayer que me alcançou interessante artigo intitulado "El dilema de la clonación". A leitura do artigo reforça a convicção de que estamos diante de um número extraordinário de possibilidades científicas e que, cada uma delas, pressupõe vastos dilemas de natureza ética. Convicto da necessidade de um debate mais amplo e de caráter interdisciplinar sobre a matéria, estamos organizando pela Comissão de Cidadania e Direitos Humanos um evento específico que permita clarear determinados pontos e, por certo, suscitar novas questões. Afora as questões propriamente religiosas que nos remetem a convicções pessoais e descartando as especulações literárias que atualizam o fantástico do gênio criativo de Mary Shelley com seu célebre "Frankstein", parece claro que o fenômeno da "clonagem" está por merecer um diálogo entre cientistas e filósofos; tanto quanto uma intervenção mais atenta da cidadania. Por hora, não seria demais destacar que as sociedades contemporâneas têm produzido outras espécies de "clones": seres geneticamente diversos, mas supreendentemente iguais em suas reações, preconceitos e valores. Refiro-me, é claro, aos resultados mais dramáticos da indústria cultural, destacadamente os padrões valorativos reproduzidos pela publicidade e pelos mass media. O que poucos parecem se dar conta é que vivemos uma época de indiferenciação crescente dos sujeitos, de renovada intolerância aos comportamentos "desviantes" e de estranhamento à razão crítica. Época de busca pelo prazer narcísico, de realização neurótica pelo consumo e de insensibilidade generalizada pelo destino dos que nos cercam. Diante deste fenômeno cultural, parece mesmo que já temos "ovelhas" demais; vale dizer: seres humanos dispostos a aceitar todas as injustiças passivamente, como se fossem "clonados" sem o gene da indignação. Marcos Rolim - 17/03/97 OPINIÃO |