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CACHORRAS

Já se observou que uma visão panorâmica sobre a produção artística de nossa época haverá de constatar um processo curioso pelo qual o lixo cultural adquire a condição de "produto" em um mercado crescente. Tal característica é parte de uma crise mais ampla que me parece particularmente notável nas artes plásticas e na música. Quanto às artes plásticas, vivemos uma época marcada pela absoluta ausência de referências. Desde a morte de Picasso, pelo menos, uma pergunta simples como: - "quem é o maior pintor em atividade?" teria tantas respostas quantos fossem os questionados. Quando Rubens fixou-se na Antuérpia, bastaram 6 meses para que todos os pintores da região reconhecessem nele o maior artista que haviam conhecido. Após as experiências das inúmeras vanguardas, desde o final do século XIX, como se reconhecer um grande pintor? Se um quadro branco sobre um fundo branco pode ser saudado como uma revolução conceitual, não chegamos a um ponto onde a produção do artista viu-se reduzida à idéia, tornando-se a própria obra autônoma de qualquer critério propriamente estético? Quanto à música erudita, após as experiências atonais e, o que foi sua expressão racional, o dodecafonismo, passamos a um impasse semelhante do qual, imagino, os modernos compositores não se livraram. Também por isso, admiramos cada vez mais Bach, Bethoven ou Mozart. Com efeito, ao contrário do que ocorre com as ciências, não há que se falar em "progresso" quando nos referimos à produção artística. Em ciências, lidamos com uma pretensão de validade que envolve a veracidade. Por isso é possível corrigir Newton ou Galileu e, de alguma forma, dar seqüência às suas teorias. O mesmo não é possível com a produção artística visto que a obra de arte não pretende expressar o real; pelo contrário, ela cria uma nova realidade cujos critérios de validação prendem-se ao gosto ou, para empregar uma expressão mais precisa: ao juízo estético. Ocorre que, tanto nas artes plásticas quanto na música erudita contemporânea, observa-se um "desligamento" entre obra e público. A rigor, não há aqui uma "indústria" ou um "mercado". Ao invés de uma vantagem, tal característica parece ser extremamente funcional à carência de inteligibilidade da produção atual em uma e outra.

Já com relação à indústria cultural, a obra está presa ao público - de tal forma que é o artista que precisa desaparecer em troca da renovação permanente do produto. Os resultados são catastróficos. Basta pensar sobre a audiência desse lixo chamado "O Bonde do Tigrão". Um ritmo tribal para palavras que insinuam violência, discriminação e dominação sexual sobre as mulheres. O limite foi o de classificar algumas como "cachorras". Ora, por maior respeito que os animais mereçam, ele nunca será o mesmo devido a um ser humano. Logo, quando se "animaliza" simbolicamente -ou seja, pelo discurso- um grupo de seres humanos, trilhamos o caminho que irá legitimar um tratamento desumano sobre esse mesmo grupo. Na seqüência lógica, "um tapinha não dói" e diferenças podem se resolver "na base da porrada" .

Em regra, esse mesmo lixo reproduzido por emissoras de rádio e TV - onde, ao que tudo indica, a inteligência e o espírito público estão de férias - promove insinuações nem sempre metafóricas ao ato sexual o que precipita questionamentos intempestivos em nossas crianças. Pior: os valores propostos por letras imbecis oferecem um reforço nada desprezível a esse processo de imbecilização coletiva produzido pela maioria dos meios de comunicação social contra o que os cidadãos, simplesmente, não possuem defesa.

Marcos Rolim - 19-03-2001

 

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