NERO E AS GRUTAS Se Nero tivesse morrido em 59 D.C. , aos 21 anos, teria sido reconhecido como um precoce estadista. Poucas sabem, mas Nero fez-se imperador aos 17 anos e, durante os primeiros 5 anos de seu reinado, notabilizou-se por suas reformas e generosidade. Nesse período, proibiu jogos com derramamento de sangue, revogou a pena de morte e permitiu aos escravos representarem contra os senhores. Cláudio, seu antecessor, mandou matar 40 senadores, mas o jovem Nero perdoou seus críticos mais ferozes e estimulou a independência do Senado. Sua clemência foi saudada e o romanos repetiram suas palavras quando assinou a primeira sentença de morte: "Por que me ensinaram a escrever?" Nos três anos que antecedem sua morte, surgiu outro Nero cuja imagem projetou-se no tempo. Mandou matar sua mãe e sua mulher, forçou seus generais vitoriosos ao suicídio, torturou e executou todos os desafetos. Para além do costume romano da cruxificação, Nero preferia costurar os cristãos em peles de animais selvagens e jogá-los aos cães, ou então besuntá-los com óleo e iluminar a cidade com tochas humanas. O que teria acontecido para justificar a transformação do primeiro no segundo Nero? Poder-se-ía falar em enlouquecimento, mas alguns historiadores têm insistido que a maldade e as práticas corrompidas de Nero surgem quando ele é fascinado por um ambicioso projeto político. O próprio incêndio de Roma - que permitiu a reconstrução da cidade - estaria a serviço desse projeto pelo qual o imperador almejava a admiração da história. A nova Roma teria 560 hectares - cerca de 1/3 de sua área total - reservados para o Palácio de Nero, a "Domus Aurea". Pela descrição de Suetônio, sabe-se que apenas o vestíbulo da construção tinha 3 km de comprimento e abrigava uma estátua do imperador de 40 m. As paredes eram revestidas de ouro, havia painéis móveis que jogavam pétalas e encanamentos que borrifavam os convidados com perfumes. O salão de banquetes era circular e revolvia como o céu, etc. A megalomania de Nero, não obstante, foi soterrada em pouco menos de 70 anos com as reformas de Trajano e Domiciano. Os romanos esqueceram-se da "Casa da Dinda" de Nero até o século XV quando escavações revelaram quartos do palácio. Como não sabiam o que eram aqueles aposentos pintados ao estilo de Pompéia, imaginaram que eram grutas decoradas. Tempos depois, Rafael desceu por cordas para estudar as "grutas".O célebre pintor imitou o estilo - que unia formas fantásticas com flores e arabescos - quando pintou as galerias do Vaticano. Isso foi chamado de "grottesche" (grotesco), ou seja: no estilo das grutas. A palavra, então, se popularizou com o sentido de "deformado" ou "exagerado". É curioso, mas a melhor palavra para caracterizar a ambição típica que ataca determinados políticos parece ser, mesmo, "grotesco". A ânsia pelo poder e a megalomania dos anões morais a que me refiro - alguns ao mesmo tempo tão jovens e tão velhos - lembra o estilo das grutas. Como reconhecê-los? Bueno, quando referem-se a sua própria trajetória descrevem epopéias e quando falam do seu futuro imaginam tronos. Não tocam liras, mas sabem-se artistas e, verdadeiramente, são capazes de atear fogo em Roma. Marcos Rolim 26/03/2001
|