cronic.gif (909 bytes)

DIADEMA E SANTA MARIA

A semana que passou foi marcada pelas cenas infames da favela Natal em Diadema. Um grupo de 10 policiais militares, organizados na forma de uma quadrilha, divertiram-se espancando, torturando, assaltando cidadãos e assassinando, com um tiro pelas costas, um deles. Tudo isto filmado por um cinegrafista amador e divulgado pela principal rede de televisão no Brasil em horário nobre. Já não há mais como alegar desconhecimento ou pressupor que a denúncia da violência policial seja, de fato, um exagero dos defensores dos Direitos Humanos. O povo brasileiro sabe, agora, que há bandidos que usam farda. Foi preciso que a barbárie fosse servida na sala de estar de cada um; que ouvíssemos os gritos de horror de cidadãos humilhados, que recolhêssemos na memória a dor de seus familiares e o espanto da opinião pública mundial para que muitos se convencessem de que estamos diante de um dos nossos mais graves problemas. Os episódios de Diadema não constituem um "fato isolado" como o disseram os senhores Fernando Henrique Cardoso e Nelson Jobim, casualmente Presidente da República e Ministro das Justiça, respectivamente. Nossas polícias estão contaminadas pela violência e pela corrupção. É claro que isto não caracteriza a atividade de todos os policiais. Aliás, diante daquelas cenas, foram os bons policiais os que sentiram-se ainda mais envergonhados e indignados. Todos eles sabem, entretanto, que a violência e a corrupção são bastante comuns, tanto na sociedade brasileira quanto em suas polícias.

Por força do meu trabalho à frente da Comissão de Cidadania e Direitos Humanos da AL/RS, tenho presenciado dezenas de relatos de cenas muito semelhantes àquelas flagradas em São Paulo. O último "Relatório Azul" , documento anual que editamos sobre a realidade dos Direitos Humanos em nosso estado, reporta 201 casos de violência policial (envolvendo tortura, espancamento e abuso de autoridade) denunciados à Comissão em apenas um ano, 150 deles na PM e 51 na PC. Invariavelmente, as vítimas são pobres e/ou marginalizadas. Há, é claro, muitas diferenças entre o RS e os demais estados que poderiam ser nomeadas. Temos, por exemplo, menos cinegrafistas amadores do que São Paulo. Mais câmeras ligadas nos ofereceriam novas e dramáticas revelações. O comprova a excelente matéria feita pela TV Bandeirantes na Base Aérea de Santa Maria que flagrou um pelotão de recrutas marchando na cadência de um refrão muito significativo: "Tortura é algo muito fácil de fazer.... Pega o inimigo e maltrata até morrer" era o que cantavam aqueles bravos soldados

Marcos Rolim - 07/04/97

OPINIÃO

 

[Links] [Ensaios] [Crônicas]
[Currículo] [Relatório Azul]
[Projetos Parlamentares] [Discursos selecionados]
[Direitos Humanos