ONDE ESTÁ ELIÁN?
Elián González, o menino cubano resgatado pela guarda costeira americana em uma câmara de ar no dia 25 de novembro, tem 6 anos. Sua história possui os ingredientes de uma tragédia sem fim e parece superar todas as possibilidades ficcionais. Conduzido por sua mãe e seu padrasto, Elián enfrentou o mar em uma balsa. Até aí, nenhuma novidade. Afinal, são muitos os cubanos que têm partilhado o sonho de escapar clandestinamente da ilha governada por Fidel há 40 anos. A balsa onde estava Elián, entretanto, afundou sobrevindo a morte de todos, menos a do menino que sobreviveu sabe-se lá como. Desembarcado nos EUA, em meio à dor pela morte de sua mãe, o menino viu-se envolvido em uma disputa político-ideológica. Deverá ser entregue ao seu pai que mora em Cuba ou permanecer nos EUA onde é reclamado por um tio avô? A comunidade cubana e anti-castrista da Flórida viu no episódio uma oportunidade para voltar às ruas solicitando das autoridades americanas a retenção de Elián. Por óbvio, encontrou logo a parceria de imbecis da extrema direita americana dispostos a lutar "pela salvação do menino". O que, no caso, significa a cidadania americana. O senador Jesse Helms, co-autor da lei que ampliou o criminoso bloqueio econômico dos EUA à Cuba, já tem um projeto de lei prontinho para isto. Ao mesmo tempo, em Cuba, Fidel transformou o episódio em outra oportunidade de mobilização do orgulho nacional. O "caso Elián" e a exigência do governo cubano pela repatriação do menino é, então, um novo capítulo na disputa contra o "imperialismo". O que se passa deveria revoltar a todos. Um menino de 6 anos, atormentado pelo sofrimento e absolutamente só, é manipulado para que os adversários da "guerra fria" possam contabilizar pontos para suas respectivas ideologias. Os partidos e políticos americanos se posicionam diante do episódio calculando ganhos e perdas nas próximas eleições; os anti-castristas se valem da tragédia para fazerem propaganda contra Fidel e os burocratas cubanos, Fidel à frente, usam Elián para comover a opinião pública e realizar atos de protesto anti-americanos. Em comum a todas estas perspectivas encontra-se a desconsideração absoluta por Elián. Em verdade, em toda a polêmica, os adversários ideológicos produziram o resultado de eliminar Elián. Para eles, o menino só existe como bandeira e sua importância real confunde-se com um slogan. O Elián de verdade, de carne e osso, foi suprimido por eles no exato momento em que sobreviveu. Virou instrumento; meio para que se alcancem determinados fins. É absolutamente claro que Elián deve voltar à Cuba. Não porque Cuba seja um bom ou mau país ou porque tenha um bom ou mau regime. Sobre isto, aliás, se tivermos em mente o fato da existência de um lugar de onde as pessoas fogem em balsas, isto já nos deveria dizer o suficiente sobre a natureza do seu regime. Ocorre que Cuba é simplesmente a pátria de Elián; que o menino tem 6 anos e lá está o seu pai. Isto deveria bastar. Mas para isto, seria preciso pensar em Elián. Marcos Rolim 24-01-2000 |