DIANA E OS FOTÓGRAFOS A morte da Princesa de Wales, simplesmente Diana, foi coberta por dedicados e persistentes fotógrafos. Os "paparazzi" - nome derivado de um personagem do célebre "Doce Vida" de Fellini - procuram, a qualquer custo, um ângulo inédito e escandaloso que lhes assegure dinheiro, muito dinheiro. Na madrugada deste domingo, Paris acompanhou a frenética perseguição que um grupo daqueles montou sobre os últimos momentos da Princesa. Ao contrário das fábulas mais conhecidas, entretanto, Diana não será despertada e o único príncipe da história não é encantado. Às margens do Sena, restaram apenas o impacto e a consternação pública. O debate que os europeus propunham, já alguns momentos após o acidente, insinuava a necessidade de uma legislação capaz de regrar a atuação da imprensa . Não sem certa razão, algumas das opiniões atribuíam aos fotógrafos que estavam ao encalço de Diana a responsabilidade por sua morte. Diante deste debate, é preciso dizer que, além dos "paparazzi" e antes deles, há uma "indústria do escândalo" operando na mídia mundial. O mais importante "produto" desta indústria, de indisfarçável mau gosto, é a indiscrição. Ocorre que tal "produto" vende com bastante facilidade e encontra um vasto público disposto a consumi-lo. Discussões domésticas, doenças e casos extraconjugais de celebridades, entre outros temas irrelevantes, costumam encantar a tigrada já há muito desabituada ao pensamento e se lixando para os temas de interesse público. Assim, a intuição que conduziu muitos a culpar os fotógrafos pela morte da princesa deveria ser completada pela responsabilização das empresas de comunicação que promovem a desconstituicão do espaço privado de quem quer que seja. Por óbvio, a "peça acusatória" deveria envolver todos aqueles que se nutrem destes abusos; o público consumidor daquele lixo, bem entendido. Tudo isto sem esquecer que o responsável imediato pelo acidente foi o motorista que trafegava a 160 km/h. No Brasil, temos inúmeros casos envolvendo celebridades; nenhum, ainda, que tenha redundado na morte de alguém, embora se possa falar em "morte civil" em algumas oportunidades. O que poucos se dão conta, entretanto, é que a invasão do espaço privado e a agressão aos direitos mais elementares dos cidadãos tem sido uma constante em programas bastante populares do tipo "Aqui e Agora" onde não se concede às pessoas mais simples sequer a presunção da inocência. Em toda a nossa imprensa há casos cotidianos de pessoas condenadas antes mesmo de qualquer julgamento; tragédias pessoais e familiares são expostas ao domínio público sem qualquer consideração pelo direito das vítimas; nem mesmo aos mortos se assegura o necessário respeito e assim por diante. Discute-se a necessidade de preservação do espaço privado das celebridades. Está certo. Não seria demais lembrar que todos os cidadãos possuem este direito Marcos Rolim - 01/09/97 OPINIÃO |