O Cosmético e o
Sentido
Há algo de superficial no valor que se atribui à juventude.
Podemos percebê-lo na forma pela qual determinados atributos
estéticos são transformados em indicadores de excelência
e, não raro, em equivalentes universais da felicidade. De uns tempos
prá cá, especialmente, uma grande indústria de embelezamento
passou a produzir um novo mercado para aqueles que desejam, sobretudo,
"permanecer jovens". Com a providencial intermediação dos meios
de comunicação social - destacadamente a TV, foi possível
mostrar os resultados extraordinários obtidos com implantes de silicone,
lipocirurgias e centenas de outras técnicas. Associou-se a essa
panacéia o apelo, cada vez mais forte, em favor de uma vida saudável
o que pressupõe uma relação intensa com o próprio
corpo, horas de malhação, cuidados à mesa, etc. Digamos
que, até aí, tudo bem. Afinal, se as pessoas podem se sentir
melhor corrigindo determinadas características físicas e se
podem, ainda, prolongar suas próprias vidas a partir de regras de
cuidado consigo mesmas, tanto melhor. O problema que desejo comentar surge
a partir do momento em que tudo isso passa a mobilizar sentimentos de
aversão à velhice ou ao envelhecer, processo que adquire nas
modernas sociedades o sentido de um não-valor.
Victor Hugo tem uma passagem onde ele assinala que "o jovem é belo,
mas o ancião é grande". Trata-se de uma bela síntese.
Em verdade, deveríamos conceber a velhice como um pensamento expandido.
Em outras palavras, como um processo pelo qual podemos alcançar a
sabedoria. Os indivíduos que envelhecem podem experimentar uma outra
forma pela qual os seres humanos são "esculpidos": refiro-me ao
alargamento do espírito. O fato é que, não se inventou,
ainda, uma cirurgia para isso.
Quando se sobrevaloriza o vitalismo sobre o sentido, quando se imagina que
a juventude seja um bem em si mesmo, o que perdemos de vista é que
os seres humanos são cada vez mais insubstituíveis na medida
em que acumulam experiência e saber, razão pela qual os
anciãos são tão valorizados nas tradições
orientais, por exemplo. O culto à juventude nas sociedades modernas,
por isso mesmo, tende a ser apenas uma forma de ocultar o vazio que caracteriza
essa época. Amamos uma forma já em larga medida "descarnada"
por cujo conteúdo sequer perguntamos. Em tal alienação,
me parece, descobrimos uma das circunstâncias da infelicidade e, em
muitos momentos, a experiência do patético. Envelhecer, mais que o destino daquele que vive, é um desafio que só pode ser enfrentado dignamente pelos que descobriram a radicalidade do espírito e suas exigências. Algo que sequer suspeitamos quando somos jovens. Nesse sentido, talvez, a juventude seja o único defeito que o tempo corrige.
Marcos Rolim 03-07-01
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