Rosas cálidas
Pensem nas crianças mudas telepáticas; pensem nas meninas cegas inexatas; pensem nas feridas como rosas cálidas... Lembram desses versos de Vinícius de Moraes em A Rosa de Hiroxima? Ando com eles na cabeça nesses últimos dias pensando nas crianças que maltratamos. Em menos de 20 dias, duas meninas foram mortas em Porto Alegre após terem sido surradas pelos seus padrastos. Gabriela tinha 6 anos e Zuliê, 4. Tiveram o fígado e o baço destroçados pelas pancadas, tinham marcas de cinta pelo corpo e ferimentos na cabeça. Os responsáveis legais negam a autoria das surras, mas afirmam que batiam nas crianças para educá-las. A maior parte das pessoas não faz idéia do sofrimento imposto às crianças. Os casos de Gabriela e Zuliê não são ocorrências extraordinárias, são ocorrências que se tornaram visíveis graças à imprensa. A violência contra as crianças no Brasil permanece invisível e é, em regra, produzida no espaço doméstico. Centenas de milhares de crianças apanham todos os dias nesse país; outras tantas são humilhadas por seus pais, xingadas, amaldiçoadas, identificadas com o que há de pior no mundo; outras, ainda, são abusadas sexualmente, violadas, estupradas e milhares delas são, simplesmente, abandonadas à própria sorte, negligenciadas, condenadas à doença e à dor. O abuso e a violência doméstica, especialmente, costumam ser varridos para baixo do tapete por familiares coniventes e/ou atemorizados. Nossa herança cultural nos diz que bater nas crianças para educá-las é não apenas legítimo, mas necessário. Estranha convicção. Em verdade, ela só se estrutura na ausência da reflexão. Os pais batem para educar e as crianças aprendem a bater. A literatura especializada já demonstrou à exaustão a existência de nexos causais entre violência sobre as crianças e desenvolvimento de comportamentos agressivos das vítimas, o que se comprova também em suas vidas quando adultas. Essa semana, enviei uma carta aberta ao Governador e ao Prefeito de Porto Alegre sugerindo algumas medidas a serem desenvolvidas na prevenção da violência contra as crianças. Cópias da carta foram enviadas aos prefeitos do estado. Poderíamos começar por nossas escolas e, ato contínuo, estruturar uma ampla campanha publicitária. Essa seria uma boa forma, aliás, de renovarmos nossa política de comunicação que não pode ceder aos apelos políticos da propaganda. Ao invés de anunciar obras e de procurar mostrar ao povo o quanto somos geniais, penso que o dinheiro público seria melhor empregado se nossas verbas publicitárias bancassem campanhas de interesse público. É o que sempre dissemos, pelo menos, quando estávamos na oposição.
Marcos Rolim 09-07-01
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