DOS PRESÍDIOS A MAIAKÓVSKI
Poucas das violações praticadas pelo Estado por ação ou omissão- simbolizam com tanta força o desrespeito ao demais notadamente aos mais humildes quanto o processo de revista íntima sobre os familiares dos presos. Por essa providência, mulheres mães e esposas de presos e, muitas vezes, os seus filhos e filhas pequenas, são submetidos ao desnudamento quando da revista. Mais do que isso são obrigados a expor seus órgãos genitais, a abrir o ânus e, no caso das mulheres, a exibir o canal da vagina. A medida, além de inconstitucional e ilegal, é absolutamente inócua uma vez que drogas e armas podem entrar nos estabelecimentos bastando para isso um único funcionário corrupto. A introdução de bons detectores de metal, entre outros recursos tecnológicos, por outro lado, resolveria grande parte dos problemas de segurança. Ao início desse governo, em julho de 1999, entreguei a Olívio Dutra um projeto-sugestão de reforma do sistema penitenciário intitulada Garantias e Regras Mínimas para a Vida Prisional. A proposta, com 93 artigos, foi elaborada tendo em conta a necessidade de um novo modelo de gestão penitenciária. Com o projeto, elaborado nos marcos da Lei de Execução Penal e sem que se demandasse investimentos significativos, teríamos condições de, rapidamente, alterar a situação de nossos presídios. Com base nela, nosso mandato organizou um Congresso de Execução Penal onde obtive o apoio entusiástico da Penal Reform Internacional (PRI), a mais importante ONG do mundo na área. Também por conta da proposta, fui convidado pela Embaixada Britânica para ser seu conselheiro em assuntos penitenciários. A Superintendência dos Serviços Penitenciários do RS (SUSEPE), por sua vez, promoveu uma ampla discussão sobre o projeto entre os funcionários do sistema que o aprovaram. Ninguém do governo, entretanto, até hoje, me informou se a proposta será ou não aproveitada. Enquanto isso, não conseguimos, ainda, acabar com a revista íntima. Graças a uma portaria da própria SUSEPE, ela já não é mais praticada na maioria dos presídios, mas em unidades como o Presídio Central de Porto Alegre ou na Penitenciária Estadual do Jacuí, em Charqueadas ela continua e, agora, com mais rigor que no passado. É simplesmente inaceitável que a revista íntima continue. Estamos tratando de um tema que diz respeito a um princípio e não há como aceitar considerandos de um governo após dois anos e meio de protelações. Por conta disso, estou publicamente cobrando as medidas que já deveriam ter sido tomadas há muito. Sei que para alguns noviços na área alguns, até, que nunca entraram em um presídio, minha postura pública é sinal de incômodo e, talvez, o equivalente a uma ofensa. Somos, mesmo, diferentes. Eles possuem empregos a preservar; eu, uma história. Poderiam, de qualquer forma, ler Maiakovski. Algo assim como: Os versos para mim não deram rublos, nem mobílias de madeiras caras. Uma camisa lavada e clara e basta, para mim é tudo. Ao comitê central do futuro ofuscante...apresento, em lugar do registro partidário, todos os cem tomos dos meus livros militantes."
Marcos Rolim 16-07-01
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