NÃO AO TERRORISMO E À RETALIAÇÃO
Os atentados terroristas nos EUA ofereceram ao mundo imagens nítidas do inaceitável. Há algo de inacreditável, mesmo, na decisão de imolar milhares de seres humanos que, rigorosamente, só podem ser acusados de terem nascido nos Estados Unidos ou estarem trabalhando ou transitando nas proximidades de símbolos do poderio militar e econômico daquela nação. O ato terrorista é, por excelência, a manifestação da pior covardia. Pelo terror, a humanidade mesma é colocada entre parêntesis enquanto os objetivos políticos particulares desse ou daquele grupo são oferecidos aos demais como o equivalente do juízo final. Não por acaso, o terrorismo costuma emergir patologicamente de convicções religiosas extremas. É a pretensão absurda - tão comum às religiões - de posse da verdade que se traduz em intolerância, tanto maior quanto mais profunda for a negação do sujeito que crê. O terrorista forjado pelo fundamentalismo, disposto a explodir seu próprio corpo em uma creche, é aquele que já não possui uma existência autônoma. Ele se considera um instrumento de uma vontade "superior" e transcendente que "age" através dele. Não lhe é possível criar qualquer sentido ou criticar os sentidos operantes no mundo; o que lhe cabe, exclusivamente, é "realizar O sentido". Com um pouco de imbecilidade e determinação, pode-se chegar a resultados bastante próximos por uma "via pagã"; ou seja, por uma opção política pretensamente revolucionária como o demonstram, suficientemente, as sequências de tragédias oferecidas ao povo espanhol pelo ETA. Nesse caso, mais uma vez, o que vemos é a absolutização de idéias abstratas, transformadas em dogmas ideológicos que, impotentes em orientar a transformação do mundo, pretendem submetê-lo por um banho de sangue. Por conta disso, devemos nos somar à luta contra o terrorismo sob pena de sermos obrigados a abandonar a própria idéia de civilização. O que pode parecer óbvio é, na verdade, uma conclusão que não vem sendo facilmente assimilada no Brasil. O sentimento anti-americano - especialmente forte no terceiro mundo- se encarrega de relativizar o problema circunscrevendo o debate "à luta contra o imperialismo" . Assim, o fato histórico incontestável do governo dos EUA ter se arvorado em polícia do mundo e produzido, tantas vezes, atos de terror sobre seus eventuais inimigos é lembrado para relativizar o significado dos acontecimentos de 11 de setembro. Por outro lado, a idéia de que os EUA possuem o "direito à retaliação" é oferecida à opinião pública brasileira sem qualquer contestação e, em larga medida, assumida pelo governo brasileiro. Mais uma vez, nossa política exterior perde a chance de exercer algum papel relevante no mundo por conta de uma vocação - ao que parece genética - de submissão aos EUA. Ora, diante do terror lidamos com valores - princípios - que transcendem a esfera da política. Quem pensa que a decisão de matar milhares de pessoas, crianças entre elas, pode caber na "luta de classes" ou ser situada dentro da "luta contra o imperialismo" pensa, também, que o mundo pode ser subordinado à dimensão política; pretensão que, no século passado, como se sabe, ergueu fornos crematórios na Alemanha e forjou o "Gulag" soviético. A idéia da retaliação, pomposamente anunciada por Bush e exigida pela maioria dos norteamericanos, por seu turno, anuncia tão somente a disposição de se praticar, ao invés da justiça, a vingança. Por óbvio, os americanos não estariam dispostos a conceder ao Japão o direito de "retaliação" por conta de Hirochima e Nagazaki; mas sentem-se autorizados a dizimar o povo afegão mesmo sem que saibam, ainda, quais os responsáveis pelos atentados. É seu orgulho nacional, sua auto-estima, que demandam as ações violentas que se preparam. É preciso construir a resistência a essa provável resposta que não guarda qualquer relação com a democracia e dizer claramente : "Não ao Terrorismo e Não à Retaliação." Marcos Rolim
18-09-01
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