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DOIS ERROS NÃO FAZEM UM ACERTO

Vivemos, cada vez mais, dependentes da informação. Não apenas nossos juízos, mas a própria idéia de realidade passa a ser construída a partir daquilo que é veiculado pelos meios de comunicação social. Nem sempre, entretanto, as notícias esclarecem. Muito frequentemente, elas mobilizam preconceitos e legitimam objetivos escusos. Sabemos, hoje, por exemplo, que os Estados Unidos coordenam um amplo esforço de guerra e que o fazem por conta dos atentados terroristas que sofreram em 11 de setembro. Sabemos, também, que o governo dos EUA exige do Afeganistão que um certo Osama Bin Laden - suspeito de ser responsável pelos atentados - lhe seja entregue e que o presidente G.W. Bush declarou que aqueles países que não estiverem com os EUA estarão com os terroristas. A partir dessas informações, várias perguntas se impõem. Quais as provas que os EUA possuem a respeito da autoria dos atentados? É legítima a exigência - feita a uma nação soberana - de "entrega" de um suspeito? Pode-se confiar nos resultados das investigações realizadas até agora pelo FBI quando sabe-se que, das 19 pessoas apontadas como suspeitas de terem sequestrado os aviões , 5 já apareceram vivas? Pode-se aceitar de um chefe de Estado - de qualquer Estado - uma exigência de alinhamento feita nos termos empregados por Bush para quem qualquer posição dissonante equivale a apoiar o terrorismo? No caso do enfrentamento ao terrorismo, é possível aceitar como razoável a mobilização de tropas ou eventuais bombardeios ou, pelo contrário, devemos acreditar que não há forma de desbaratá-lo sem fortes investimentos naquilo que a linguagem policial costuma caracterizar como "inteligência"?

Reli essa semana o ensaio publicado originalmente na Vanity Fair por Gore Vidal e reproduzido em três partes pelo Estadão nos dias 26, 27 e 28 de agosto desse ano sobre Timothy McVeigh , réu confesso, executado em Indiana após ter sido condenado pelo atentado em Oklahoma. No polêmico texto, Gore Vidal demonstra a lógica interna de McVeigh que, ao que tudo indica, agiu para vingar os mortos de Waco, Texas. Apenas para lembrar: em abril de 1993, o FBI massacrou, naquela localidade, 80 pessoas de uma seita religiosa conhecida como Ramo Davidiano. Entre os mortos, 27 eram crianças. Parece certo que Vidal termina por oferecer uma justificativa ao terror e que, por isso mesmo, seus argumentos devem ser recusados com veemência. Não deixa de ser impressionante, entretanto, a crítica feita ao governo e à imprensa norteamericana que foi conivente com o massacre e que se calou, depois, quando Clinton aproveitou-se da tragédia em Oklahoma para aprovar uma legislação "anti-terror" que, na prática, autorizou o governo a praticar barbaridades e que revogou inúmeros direitos civis.

Naquele momento, como agora, podemos repetir a frase que se ofereceu ao próprio Vidal como contestação básica: "dois erros não fazem um acerto." O fato é: não aceitamos o terrorismo e não lhe oferecemos justificativas; mas, tampouco, podemos aceitar que, sob o argumento de combatê-lo, novas atrocidades e injustiças sejam praticadas. A idéia de que estamos diante de uma luta entre o "bem" e o "mal" e que cada uma dessas duas entidades está perfeitamente identificada na guerra que se avizinha é, em si mesma, conivente com a barbárie.

Marcos Rolim

24-09-01

 

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