O SEMEADOR E O QUE SEMEIA
Em 1655, no "Sermão da Sexagésima" - peça de extraordinário valor histórico e literário - Padre Antônio Vieira afirmou que "uma coisa é o semeador e outra o que semeia"; da mesma forma que "uma coisa é o soldado, outra o que peleja; uma coisa é o governador, outra o que governa". O célebre jesuíta procurava responder a questão: - Por que a palavra de Deus não faz frutos? Sua resposta, inequívoca, foi: "- Por culpa dos pregadores". Todo o sermão é uma crítica aos limites dos pregadores que "falam ao vento , mas não ao coração; que pregam aos ouvidos, mas não aos olhos". Para Vieira, se a vida do pregador é uma apologia contra a sua doutrina; se suas palavras já aparecem refutadas por suas obras, então os frutos não aparecem. Também por razões de estilo as dificuldades são inúmeras posto que "as palavras devem ser como estrelas, muito distintas e muito claras", o que não implicava qualquer rebaixamento do discurso porque "não são as estrelas distintas, claras e altíssimas" ? Segue, assim, o autor apresentando seus argumentos e aconselhando os pregadores a escolherem um só tema para seus sermões já que "quem levanta muita caça e não segue nenhuma, não é muito que se recolha com as mãos vazias". Quero me deter, não obstante, no argumento do capítulo VII do Sermão onde Vieira afirma: "Muitos pregadores há que vivem do que não colheram e semeiam o que não trabalharam". O pregador, argumenta, há de pregar o seu e não o alheio. O alheio pode, até, ser bom para comer porque saboroso, mas não será bom para semear porque não nasce. O pregar, diz Vieira, é "entrar em batalha contra os vícios e as armas alheias, ainda que sejam as de Aquiles (referência à Pátroclo que foi vencido e morto com as armas do herói grego) , a ninguém deram vitória". Quando Davi saiu a campo com o gigante, ofereceu-lhe Saul as suas armas, mas ele não as quis aceitar. "Com as armas alheias ninguém pode vencer, ainda que seja Davi". Aqui, o texto pode nos oferecer uma bela metáfora para a crítica a uma certa militância alienada - tão comum nos dias que correm - que se contenta em recitar e que parece demonstrar uma compulsão pelo já dito. Um tanto quanto deprimido, ouço o discurso daqueles que se especializaram em repetir; para os quais toda a complexidade do mundo aparece dissolvida em algumas fórmulas dogmáticas, identificando, apenas, posturas absolutamente conservadoras, ainda que apresentadas com uma sincera pretensão "revolucionária". Ao final e ao cabo, tudo redunda infrutífero pois como assinalou Vieira: "o que há de dizer o pregador, não lhe há de sair só da boca, mas da cabeça. O que sai só da boca, pára nos ouvidos; o que nasce do juízo penetra e convence o entendimento". Com efeito, não será essa uma de nossas maiores dificuldade? Não residirá aí, na ausência de juízos autônomos e de um discurso que seja a expressão de uma conquista do pensamento, uma das principais dificuldades enfrentadas pela esquerda contemporânea? Ao invés de nos contentarmos com o título de semeadores, não deveríamos almejar a condição dos que semeiam?
Marcos Rolim
01-10-01
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