OS ASILOS
Escrevo esse texto às pressas, na madrugada de domingo para segunda feira, em São Paulo. Logo mais, pela manhã, começamos, nesse estado, a V Caravana Nacional de Direitos Humanos que, desta vez, visitará asilos em várias unidades da federação. Não sei, ainda, o que vamos encontrar, mas as denúncias que temos recebido na Comissão de Direitos Humanos envolvem casos bastante sérios de maus tratos e, mesmo, exploração de idosos por pessoas inescrupulosas. Após visitar manicômios, presídios, polícias e Febens, a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dá um passo importante para que a realidade das instituições asilares - onde, muitas vezes, os idosos são simplesmente depositados - possa vir à tona. Para as posições que tenho sustentado e para a idéia que faço a respeito das prioridades que devemos elencar entre as políticas públicas no Brasil, é importante saber que o projeto das Caravanas que iniciamos o ano passado tenha, agora, continuidade. Se a Comissão der o seu aval, pretendo, ainda, realizar uma outra Caravana em torno de um tema que me inquieta há muito: os orfanatos brasileiros. Vamos ver. Ao final desse trabalho, nossos relatórios terão, possivelmente, produzido algumas das páginas mais tristes da nossa história; mas, ao mesmo tempo, terão oferecido ao país um programa de ação cujo conceito central pode ser expresso pela palavra "dignidade". De qualquer forma, não deixa de ser revelador o fato de que, em pleno século XXI, tenhamos milhares de idosos condenados a um final de vida silencioso e sem sentido atrás dos muros de instituições que promovem sua apartação social. De fato, entre nós, tornou-se bastante comum imaginar que pessoas fragilizadas - seja por sua situação econômica, pela idade avançada ou pela ocorrência de doenças as mais variadas - sejam esquecidas em instituições de caráter inequivocamente disciplinar onde se produz uma mortificação notável por sua crueldade. Há aqui a sobrevivência de um certo "higienismo" social pelo que procura-se, logo, a institucionalização do que nos estranha, amedronta ou incomoda. Os asilos, como as demais "instituições totais"- para usar a célebre expressão cunhada por Goffman - não tratam dos problemas para os quais foram criadas. Não raras vezes, agravam esses mesmos problemas. Há um efeito extraordinário, entretanto, que tais instituições produzem: elas escondem esses problemas de todos e nos oferecem a ilusão de "nada pode ser mudado".
Marcos Rolim
15-10-01
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