NOTÍCIAS DOS ASILOS
Durante toda a semana que passou, estivemos visitando asilos de idosos em São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco e Paraná com a V Caravana Nacional de Direitos Humanos, organizada pela Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. Ao todo, foram 26 instituições visitadas. Como relator da Caravana, terei a oportunidade de expor detalhadamente a situação que encontramos. Nos limites dessa crônica, conto dois casos que me pareceram bastante significativos. O primeiro é o de dona Laura, 77 anos, internada no Abrigo Evangélico "Razão de Viver" em Realengo, zona Oeste do Rio de Janeiro. Dona Laura tem 4 filhos, mas não recebe visitas. Logo quando entramos no asilo, ela começou a me relatar o quanto era difícil viver longe de sua família, o quanto se sentia só, etc. Então, me convidou a acompanhá-la, braço dado, pelas dependências da casa. Enquanto caminhávamos, devagar, ela me fez um insólito pedido: queria que eu permitisse que ela me apresentasse as suas amigas internas como seu filho. Percebi o quanto aquilo parecia ser importante para ela e, é claro, consenti. A cada velhinha que encontrávamos, Dona Laura me apresentava, então, feliz. Algumas das suas colegas diziam coisas como: "que bom que o senhor veio" ou: "ela fala tanto nesse filho..." O segundo caso é o de dona Maria do Rosário, 71 anos, internada há vinte anos no abrigo Cristo Redentor em Recife, Pernambuco. Quando começamos a conversar ela estava sentada em uma cadeira de balanço em uma varanda contígua ao amplo alojamento feminino do asilo. Notei que ela estava com uma faixa atravessada por sobre o abdômem que a prendia na cadeira. Já havia visto faixas do tipo em outros asilos e que eram usadas para prevenir a queda de idosos sequelados por AVC ou com algum tipo grave de limitação. Dona Maria do Rosário, entretanto, me parecia estar muito bem fisicamente; sem risco, portanto, de despencar da cadeira. Foi quando ela me perguntou, como quem convida alguém à prática de uma traquinagem: - "O sr, tem um canivete ou uma tesoura?" Por óbvio, ela queria cortar a faixa. Só então descobri que ela era amarrada para que não tivesse chance de fumar (!) Por sorte foi possível chamar os repórteres que acompanhavam a Caravana e registrar tudo. Após a repercussão do fato na imprensa local, penso que Dona Maria do Rosário poderá voltar a fumar sossegada. Dona Laura e Dona Maria são duas idosas cuja situação particular de sofrimento representa bastante bem o que se produz pelo abandono das famílias e pelo descaso do Poder Público. Temos, hoje, no Brasil, mais de 14 milhões de idosos. Desse total, pelo menos 1,7 milhão vivem com uma renda mensal inferior a ¼ do salário mínimo. Apenas cerca de 450 mil recebem o benefício de prestação continuada previsto pela Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS). Isso significa que temos mais de 1 milhão de idosos vivendo na miséria absoluta. Em 20 anos, a população de idosos será equivalente ao dobro do que temos hoje no Brasil. Os asilos, até agora, cumpriram a função de esconder de todos a ausência de uma política pública para o idoso. Até quando?
Marcos Rolim 22-10-01 |