CARTA PARA OLÍVIO DUTRA
Prezado Olívio
Resolvi escrever esta breve carta para te dizer que há determinadas coisas na vida que estão muito acima da política ou das ideologias: as pessoas, por exemplo. Cada uma delas possui um valor que não pode sequer ser comparado aos valores que emprestamos aos nossos objetivos. É preciso resguardar os seres humanos, protegê-los, das injunções políticas e manifestar diante de cada uma das pessoas uma postura de absoluta reverência. Em cada uma delas, afinal, testemunhamos um milagre e vislumbramos a idéia de humanidade pela qual nos definimos. Algumas pessoas nos encantam, outras nos decepcionam; algumas nos desejam o bem, outras não; por algumas pessoas nos apaixonamos, enquanto, por outras, nutrimos uma mal disfarçada vontade de distância. Seja como for, as pessoas demandam sempre respeito e tratamento digno. Esta deveria ser nossa primeira e mais importante lei. Na tua pessoa, Olívio, admiro sobretudo o cidadão que és. Tua postura vertical e inflexível, tantas vezes associada à figura mítica do gaúcho, me traz à lembrança as características morais jacobinas. Trouxeste algo de definitivo para nós, Olívio. Muito além das nossas diferenças, ou antes delas, és o equivalente à persistência que nos sustenta e à solidariedade que desejamos multiplicar. Teu caminho, já tão largo, se confunde com a história recente do Rio Grande. Ele passa por greves realizadas em tempos de ditadura e pela prisão da Lei de Segurança Nacional; ele passa pelos assentamentos dos sem terra e pelas procissões da fé que tu partilhas. O teu caminho, Olívio, trilhado por passeatas e lutas memoráveis, foi sempre marcado pela generosidade, pela renúncia e por esse jeito simples e sincero que termina por nos cativar. Tens uma história que é, em larga medida, a história de um povo. Por isso, companheiro, no momento em que objetivos políticos menores pretendem te atingir (oferecendo à opinião pública um manifesto de injustiça) , receba deste simples militante um abraço fraterno e a lembrança de uns versos do poeta uruguaio Mário Benedetti: "Para cruzá-la, ou não cruzá-la / eis a ponte / na outra margem alguém me espera / com um pêssego e um país / Trago comigo oferendas desusadas / entre elas um guarda-chuva de umbigo de madeira /um livro com os pânicos em branco / e um violão que não sei abraçar / Venho com as faces da insônia / os lenços do mar e das pazes / os tímidos cartazes da dor /as liturgias do beijo e da sombra / Nunca trouxe tanta coisa / nunca vim com tão pouco / Eis a ponte / para cruzá-la ou não cruzá-la / e eu vou cruzar / sem prevenções / na outra margem alguém me espera / com um pêssego e um país."
Marcos Rolim 23-11-01 |