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OS FILHOS DA SOLIDÃO

Começamos no último dia 02, no Maranhão, a VI Caravana Nacional de Direitos Humanos que aborda, desta vez, a realidade das crianças abrigadas. Já visitamos, além de instituições em São Luís, abrigos e orfanatos na Bahia, em São Paulo, em Curitiba, em Porto Alegre e região metropolitana. Iremos, ainda, logo que a Câmara entrar em recesso, ao Rio de Janeiro. A viagem nos permitiu um contato com uma realidade ainda hoje rigorosamente desconhecida. Em nosso país, são centenas de milhares de crianças institucionalizadas que aguardam a adoção, um sonho cada vez mais improvável para a maioria delas. Nossas tradições culturais não desenvolveram uma cultura de adoção. Os poucos casais que decidem-se por adotar uma criança procuram, invariavelmente, bebês recém nascidos, preferencialmente brancos, sadios e perfumados.

As crianças maiores, abandonadas, negligenciadas ou vitimadas pela violência ou abuso sexual, estão em regra condenadas a crescer dentro de instituições. Ali, por melhor que seja o trabalho desenvolvido, por maiores que sejam os esforços e a generosidade dos que lhes oferecem atenção e cuidado, essas crianças estarão desprovidas do fundamental: carinho e referência familiar. Conversei, demoradamente, com dezenas delas. Devo dizer que é muito dolorido. Ao contrário dos presídios, dos manicômios e mesmo das FEBEMs, a sensação quando da saída dos abrigos não era de indignação ou revolta, mas, apenas, de uma avassaladora tristeza.

Os pequenos te cercam, perguntam se você será o pai delas, disputam o teu colo ou a garupa como que implorando pelo toque físico, te convidam para voltar, te perguntam se você irá passear com elas. Meu Deus! Em São Luís, em um quarto de um abrigo onde dormiam 5 meninas pequenas, perguntei o que elas mais gostavam de fazer. Responderam que gostavam de brincar de boneca, mas que as bonecas ali eram "para enfeite". Não entendi a resposta. Foi quando uma apontou para o alto e pude ver uma dezena de bonecas, dentro de suas caixas, fixadas bem ao alto da parede, como que decorando o ambiente. Uma monitora esclareceu que as crianças estragavam muito os brinquedos e que as bonecas permaneciam nas caixas para serem entregues aos poucos... Falei, então, para as crianças que bonecas não podem ficar dentro de caixas porque adoecem e, ato contínuo, para espanto da monitora e alegria das meninas, "libertei" todas elas. A passagem é, tão somente, simbólica do que é um orfanato típico , mesmo que tenha o nome de "abrigo". Vimos, também, coisas boas e compartilhamos algumas experiências emocionantes de dedicação e afeto entre "cuidadores" e crianças. Nada, entretanto, pode contornar o drama vivido por aqueles que são os filhos da solidão. Só o gesto permanente da adoção , sinal maior de solidariedade que se pode produzir, é capaz de enfrentar o problema. O desafio que decidimos encarar, então, é: como formular uma política pública capaz de, por um lado, prevenir o abandono e, por outro, estimular a adoção? Nosso relatório irá tentar oferecer uma resposta. Na próxima semana, retomo o tema.

Marcos Rolim

12-12-01

 

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