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OS FILHOS DA SOLIDÃO - II

"O ponto de partida do amor consiste em permitir àqueles que amamos serem perfeitamente eles mesmos e não transformá-los para que se ajustem à nossa própria imagem. Caso contrário, amaremos apenas o reflexo de nós mesmos que encontramos neles"

Thomas Merton

Após cada Caravana que realizamos pela Comissão de Direitos Humanos, passo a me dedicar à elaboração dos relatórios o que exige, não apenas rever as anotações feitas durante a viagem, mas, especialmente, ler as obras fundamentais sobre o tema. Sem essa revisão bibliográfica, mesmo o nosso olhar sobre os problemas seria diminuído. Em Curitiba, conheci a psicóloga Lidia Weber que é uma das mais importantes pesquisadoras sobre adoção no Brasil. Sua obra é mesmo uma referência preciosa. Terminei a leitura de um dos seus livros, "Laços de Ternura - pesquisas e histórias de adoção" (Juruá Editora, 1999, Curitiba), que recomendo vivamente. Nessa obra, a autora vai demonstrando o quanto um conjunto de idéias sobre adoção, fortemente assentadas no senso comum, não passam de preconceitos. A noção, por exemplo, segundo a qual uma criança adotiva será sempre uma "criança de risco" não resiste a qualquer investigação séria. Nada demonstra que crianças adotadas sejam mais ou menos "problemáticas". O que suas pesquisas comprovam é que a prática - ainda hoje tão comum - de esconder das crianças sua origem expressa a violação de um direito fundamental - toda criança tem o direito de saber sobre a adoção - e prepara um conflito potencial posto que, muito provavelmente, o filho adotivo irá descobrir essa condição. Muitas vezes, assim, o que há de problemático na adoção é o segredo e, naturalmente, a mentira. Nos deparamos aqui com uma tradição cultural a ser superada. Ao contrário do que se imagina, os filhos adotivos são, em regra, felizes e constróem uma verdadeira vinculação afetiva com seus pais. Nos EUA, de longe o país onde mais se adota, a cada ano ocorrem aproximadamente 140 mil adoções. O fato marcante é que 1/3 dos adotantes possuem filhos biológicos.

Historicamente, a adoção pode ser dividida em duas grandes etapas: a "adoção clássica" que visa solucionar a crise de casamentos sem filhos e a "adoção moderna" que busca resolver a crise da criança ou adolescente sem família. Ainda vivemos a prevalência do primeiro paradigma, o que fica claro pelo trabalho de Lidia Weber. Segundo suas pesquisas, 91% dos pais adotivos em Curitiba eram casados, com idade até 40 anos e 55% deles não possuíam filhos biológicos. Entre os adotados, 69% eram bebês de até três meses e 64% tinham pele clara. Esses números demonstram que nossos esforços na matéria devem se voltar, prioritariamente, para o estímulo das adoções tardias e inter-raciais. Para que seja possível oferecer a milhares de crianças aquilo que é, tão somente, o básico: o amor de uma família. Em um abrigo em Curitiba, um menino de 07 anos insistiu comigo, quando viu meu telefone celular, para que eu ligasse para o Papai Noel. Disse a ele que eu não sabia o número do bom velhinho, mas que se o encontrasse poderia lhe dar um recado. Perguntei, então, o que ele gostria de pedir. A resposta veio pronta e afiada como um punhal: - "Eu queria pedir para ele um pai e uma mãe. Ah, uns irmãos também, se der", acrescentou. Lidia Weber, com base na poesia do Grupo e Meninos de Rua da comunidade Profeta Elias de Curitiba, organizou os seguintes versos que, por certo, dizem o fundamental. Com eles, abrirei o relatório da VI Caravana Nacional de Direitos Humanos. O título é: "Ao menino que mora do outro lado da rua". " Você menino tem casa, flores e jardim / para mim, na instituição, só tem um corredor sem fim; Você é acordado com um beijo no rosto/ eu acordo com o som estridente da campainha do posto; Você tem leite, yogurte e margarina/ para mim tem chafé e pão amanhecido na cantina; Depois do café você brinca com seu irmão/ eu pego o balde e a vassoura para limpar o chão; Para você, sua mãe serve o almoço com bife, arroz, feijão/ eu fico todos os dias na fila do bandejão; Você deita em seu quarto quando está cansado/ eu fico sentado na escada porque meu quarto tem cadeado; Se você chora à noite, sua mãe vem para te afagar/ se eu tenho um pesadelo, só tenho o travesseiro para abraçar; Sua família leva você à escola, ao judô e para passear/ a minha família, há três anos não vem me visitar; Você tem uma bela rotina de uma família em ação/ eu não tenho ninguém, sou filho da solidão".

Marcos Rolim

17-12-01

 

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