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A DAMA DO LOTAÇÃO

Marcos Rolim

Deputado Federal - PT

A semana que passou foi marcada pelos episódios do seqüestro tentado em um táxi-lotação de Porto Alegre que fez nove reféns e se prolongou por mais de 27 horas. O autor, como se soube após a rendição, João Sérgio, é um auxiliar de cozinha, humilde, sem antecedentes criminais e, possivelmente, portador de sofrimento psíquico. Sua ação revela a emergência de um surto psiquiátrico e o "transbordamento" de um sujeito diante de seus próprios limites. Em Pelotas, onde eu estava para uma palestra, tive a oportunidade de ouvir em "off" a frase inapelável de um comentarista em uma rádio local: "Sequestrador tem de matar!" Talvez, muitos outros gaúchos tenham, logo nas primeiras horas da manhã, pensado o mesmo. Com o desenrolar do drama vivido pelos reféns e por seus familiares, entretanto, algo foi se alterando.

Primeiro, o RS pôde acompanhar uma ação exemplar da Polícia Militar. Ao invés da abordagem "fulminante" que pudesse satisfazer os vampiros de sempre com um banho de sangue, a Brigada conduziu toda a intervenção nos limites da melhor técnica policial. Desde o início, quando os pneus da viatura foram alvejados, até à decisão de negociar indefinidamente, o que tivemos foi um "show" de profissionalismo, algo do que devemos nos orgulhar. Segundo, a cobertura da imprensa, com destaque à Rádio Gaúcha, ofereceu inúmeros ângulos de abordagem, tranquilizando e orientando a população. Após a entrevista obtida por Carlos Wagner com João Sérgio - conduzida com a responsabilidade e sensibilidades próprias de um grande jornalista - tivemos o depoimento da Sra. Neli Pessim, 70 anos, a segunda refém a ser liberada. Dona Neli chamou o sequestrador de "meu filho" e rezou para que ele não se matasse.

Penso que entre a frase do comentarista em Pelotas e o depoimento de Dona Neli existe uma diferença nem sempre observável. O primeiro, fala à distância, sem maiores informações e, por isso, pode se referir abstratamente à figura do "sequestrador" sendo comandado, apenas, por seus próprios preconceitos; a segunda, fala após conhecê-lo pessoalmente, após ter convivido, ainda que na condição de vítima, com as suas misérias e angústias. Para o primeiro comentário, é simples desconsiderar a humanidade do transgressor; para o segundo, isso já não é mais possível. É claro que sempre haverá alguém para lembrar da tal da "Síndrome de Estocolmo", mesmo sem se inquirir sobre a procedência científica dessa expressão. Tudo bem. Talvez exista algo de Estocolmo em Porto Alegre, mesmo. O depoimento de Dona Neli, de qualquer forma, nos ofereceu a senha para um olhar possível a ser dirigido a pessoas como João Sérgio; algo que as pessoas mais simples identificariam imediatamente com a mensagem cristã e que nós, teimosamente, queremos afirmar com a idéia de "Direitos Humanos". Não a impunidade ou a condescendência diante do crime, mas a compreensão de suas causa e circunstâncias e o seu tratamento nos marcos estritos da lei. O que Dona Neli parece ter conseguido dizer a todos poderia ser resumido assim: nós que não aceitamos a violência, nos recusamos a agir como bandidos. Simples, não ?

08/02/02

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