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UM CERTO DANIEL

                                                                                          Marcos Rolim

                                                                                          Deputado Federal - PT/RS                        

Esses dias, conheci um homem de nome Daniel. Tem 72 anos e está praticamente cego. Mora no município da Mata e é uma das pessoas mais admiráveis do Brasil. Poucos o conhecem ou ouviram falar dele. Se esse Daniel tivesse nascido em algum país do chamado "primeiro mundo", seria tratado com a reverência dedicada aos heróis nacionais. As autoridades o visitariam com frequência, seria chamado a realizar conferências em universidades e os professores contariam às crianças episódios de sua vida. Estou falando do Padre Daniel Cargnin, cuja vida tem sido dedicada à pesquisa, à identificação e à preservação de registros fósseis em nossa região. Padre Daniel, além da fé e da dedicação que emprestou às comunidades onde atuou, é um autoditada que adquiriu conhecimentos de geologia e paleontologia invejados por profissionais do ramo. São muitas as suas descobertas e seu trabalho possui uma importância científica inestimável. Foi ele quem identificou, há muito tempo, por exemplo, pegadas fósseis de cerca de 200 milhões de anos em Novo Treviso, interior de Faxinal do Soturno. Na época, ninguém - fora um restrito grupo de cientistas - deu importância ao achado. Pois bem, a Revista Brasileira da Paleontologia acaba de publicar um resumo do estudo realizado por vários cientistas, entre eles o renomado professor Ismar de Souza Carvalho, do instituto de Geociências da UFRJ, onde se confirma que as marcas em arenito fino quartzozos situadas ao lado da Igreja em Novo Treviso são mesmo registros fósseis. As marcas maiores e mais profundas são de árvores pré-históricas e as menores, com 30 cm de largura e 15cm de comprimento são, de fato, pegadas tridáctilas, possivelmente de origem reptiliana. A propósito, seria importante que o prefeito de Faxinal do Soturno mandasse retirar a ameaça das cargas de pedra depositadas ao longo da rua onde estão as pegadas e afastasse, definitivamente, a antiga intenção de calçar (sic) aquele sítio arqueológico.

Quando chegou à Mata, Padre Daniel constatou que os fósseis vegetais eram levados, impunemente, em vagões de trem. Além desse furto tradicional havia, em São Pedro, uma empresa que os transformava em brita (!) Lá, Padre Daniel chegou a comprar 16 toneladas de "lixo" , na verdade, restos de fósseis não "aproveitados", trazendo essa montanha de volta para a Mata. Assim, começou o processo de conscientização da comunidade sobre a importância da preservação. Padre Daniel foi um dos organizadores do Museu do Patronato em Santa Maria; na Mata, fez o Museu de História Natural e O Jardim Paleobotânico. Nesse último, há uma placa com o nome do ex-governador Antônio Britto que sequer esteve lá. Nenhuma referência ao Padre Daniel. Nenhuma homenagem. Coisas da vida; marcas de uma tradição que nos habituou a cultuar os poderosos e a desconsiderar os mais simples. Seja como for, não haveria homenagem grande o suficiente para fazer justiça a esse Daniel, nem ele precisaria disso. Padre Daniel é um desses anjos que nos cercam. Um ser assim, que veio ao mundo para nos proteger daquilo que há de irrelevante e medíocre nas coisas. Obrigado Padre Daniel.

Marcos Rolim 28-01-02

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