cronic.gif (909 bytes)    

                        BIG BROTHER BRASIL

Marcos Rolim

Deputado Federal - PT

     A TV brasileira acaba de dar mais um passo em direção ao nada; aliás, dois passos: "Big Brother Brasil", da Globo e "Casa dos Artistas", do SBT assinalam, ambos, uma aposta persistente no vácuo cultural. A idéia dos programas, como se sabe, é a de captar cenas do cotidiano de "pessoas comuns" em um espaço privado com câmeras espalhadas em todos os aposentos, banheiros inclusive. Os escolhidos são catapultados para a fama por conta do "voyeurismo eletrônico" e costumam ser especialistas em bobagens.

     Há, de início, duas mentiras nos programas: as pessoas convidadas não são, exatamente, "pessoas comuns": são, em regra, jovens adultos da classe média que compartilham as características da ambição e da superficialidade. Em segundo lugar, as cenas não são de "flagrantes da vida privada" uma vez que todos sabem que estão sob a luz dos refletores; o espaço que habitam, então, é público por definição. Nenhum deles está em uma "casa", mas em um "palco". A diferença é que não há enredo, nem peça, nem filme. Não há qualquer proposta estética, nem diretores ou artistas. O que há, então? Há uma farsa na qual reserva-se lugar para tudo, menos para o pensamento. Há, especialmente, espaço para a grosseria e o grotesco, para o preconceito e para a ausência de conceito, para a linguagem vulgar e para a vulgaridade sem linguagem.

     Os personagens dessa farsa não representam, são caricaturas de si próprios. Tentam parecer melhores do que são e, quando conseguem, realçam apenas o que há de insuportável nas ausências que os constituem. São como esfinges sem enigmas; jovens que já se resignaram antes mesmo que houvessem se revoltado contra o que quer que fosse. É certo que deve-se admitir nas pessoas o direito à falta de seriedade, pelo menos nos momentos em que ela não seja uma imposição; concedo que as pessoas tenham mesmo o direito à tolice, especialmente quando crianças ou adolescentes. O que me parece inconcebível é que a TV promova tudo isso em um padrão de idiotia ao qual se confere, inclusive, o estatuto de fato noticioso. Poderíamos dizer que tudo não passa de um espetáculo lamentável, mas não há sequer "espetáculo". Estamos comentando, então, aquilo que é a mais recente chatice da TV que, como era de se imaginar, reúne uma generosa audiência entre aqueles já acostumados a perder seu tempo.

     Sem que se dêem conta, os telespectadores vão sendo "colonizados" pela mediocridade midiática. Sintonizam seu tempo livre com esse lixo e, nessa opção, aprisonam-se com seu tempo. Ao inverso dos "prisioneiros de consciência", entretanto, perdem sua liberdade por não pensar. Na célebre ficção de Orwell - "1984" - a figura do "Big Brother" representava a ameaça do totalitarismo. A história nos permitiria inúmeras analogias ou metáforas mas, sinceramente, esse tipo de programação não as merece. Na TV brasileira, "Big Brother" é apenas outro nome para a ameaça da banalidade.

Marcos Rolim 25-02-02

[Inicial]
[Links] [Ensaios] [Crônicas] [Currículo] [Relatório Azul]
[Projetos Parlamentares] [Discursos selecionados] [Direitos Humanos]