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CASA GRANDE E SENZALA

       O PFL desembarcou do governo, dizem. Mais do que um fato político, estamos diante de um fato jornalístico. Sim porque é uma notícia e tanto se o mais governista entre os partidos estiver mesmo fora do governo. O PFL é governo desde sempre e seus integrantes já eram do governo antes mesmo do PFL. Há, então, um modo "pefelê" de ser e esse modo, um "estilo", digamos assim, envolve duas características básicas: a capacidade de concordar com o governo sempre e de se locupletar com o exercício de funções públicas. Seria, de qualquer forma, injusto atribuir essa conduta a todos os integrantes do PFL, tanto quanto seria equivocado preservar os demais partidos, inclusive os da esquerda, da possibilidade de vícios semelhantes. O poder, afinal, é capaz de transformar as pessoas. Nós, petistas, por exemplo, devemos tomar cuidado para que esse mesmo estilo não se crie junto aos nossos governos. A história toda começa com um bom CC, evolui para o emprego dos parentes, passa pelo uso do carro oficial, pelo desenvolvimento do clientelismo, pelo "toma lá dá cá", pelo abuso do poder econômico e, mais cedo do que se imagina, pela oportunidade da propina, da "contribuição" para a liberação de uma fatura, coisas assim. O final da história todos conhecem: a desmoralização da política, a produção em série da pilantragem e a manutenção dessa tristeza que é a realidade vivida pelos excluídos.

     Pois o PFL ficou chocado com o fato de a Polícia Federal ter cumprido um mandado de busca e apreensão na empresa do Sr. Jorge Murad e da Sra. Roseana Sarney. Dona Roseana chegou a afirmar que deveria "ter siso avisada". (sic) Logo depois, o partido formulou a tese de que, em se tratando de uma governadora, Roseana teria "foro privilegiado". Esqueceram-se de dizer que a figura, prevista pelo texto constitucional, refere-se ao julgamento, mas nunca à investigação. Depois, entre acusações ao governo e denúncias de "discriminação à mulher" - sim, porque mais recentemente o PFL se converteu ao feminismo- , Dona Roseana tratou de alcançar liminar que lacrou os documentos apreendidos pela Polícia Federal, impedindo que saíssem do Maranhão. Pela medida e pelo alarido, pode-se avaliar o que há de verdadeiro nas declarações da governadora de que "tudo deve ser investigado".

     Estamos, então, diante de uma crise política porque um Juiz federal expediu mandado de busca e apreensão, cumprido nos termos da Constituição. Para as lideranças do PFL a própria investigação é um "escândalo". Penso de outra forma. Escândalo, para mim, é quando a polícia invade as casas dos pobres sem mandado judicial; quando se "pedala" as portas dos barracos e se expõe as pessoas humildes à mira dos revólveres em "batidas" indiscriminadas e ilegais onde, não raras vezes, os descontentes são roubados e apanham. Nesses casos, entretanto, que acontecem todos os dias, não se conhece um protesto sequer do PFL.

     A idéia republicana de que todos nós somos iguais perante a Lei é, para o PFL, o equivalente à subversão. Para eles, a turma da "Casa Grande" deve ser tratada de outra forma e Polícia, afinal, é coisa para a "Senzala". Entre a investigação sobre a SUDAM - que agora encosta na aristocracia Sarney - e a reação do PFL há uma distância equivalente entre aquela que separa a democracia do regime dos feitores. Essa é a essência da crise que monopoliza os noticiários.

Marcos Rolim 12-03-02

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