SOB OS TEUS PÉS
Marcos Rolim Deputado Federal - PT
Willian Butler Yeats foi um dos mais importantes poetas da língua inglesa. Irlandês, nascido em Dublin em 1865, morreu em 1939. Sua poesia revela um romantismo culto e uma originalidade dramática incomparável. Entre os seus poemas, há uma pequena composição que me perturba: chama-se "He Wishes for the Cloths of Heaven". Desafortunadamente, não conheço tradução em língua portuguesa desse poema, embora ela deva existir na edição - há muito esgotada - de suas obras completas. O poema é o seguinte: "Had I the heavens' embroidered cloths/ Enwrought with golden and silver light / The blue and the dim and the dark cloths / Of night and light and the half-light / I would spread the cloths under your feet: But I, being poor, have only my dreams/ I have spread my dreams under your feet/ Tread softly because you tread on my dreams." Mesmo correndo o risco de cometer um crime literário, uma tradução livre desses versos evoca o seguinte: "Tivesse eu as roupas bordadas do paraíso/ tecidas com luz dourada e prateada/ o azul e o escuro e os negros panos da noite/ e a luz e as metades-luzes/ Eu espalharia essas roupas sob os teus pés: Mas, sendo pobre, tenho apenas os meus sonhos/ Eu tenho espalhado os meus sonhos sob os teus pés/ Por isso, pise suavemente; afinal, você está andando sobre os meus sonhos". O que W.B. Yeats tinha em mente quando escreveu esses versos? Talvez, simplesmente, desejasse expressar ao seu amor o quanto dele havia já se despreendido por conta dos seus sentimentos. Ele ofertaria o que de mais extrordinário e maravilhoso um amante pudesse conceber; sendo isso impossível, submeteu seus próprios sonhos ao amor que o fascinava. O poeta anuncia, ao mesmo tempo, que os sonhos são uma substância especialmente frágil e, por isso, sua declaração, para além daquilo que encerra de radicalmente humano, parece um apelo em favor do cuidado; uma prece pagã pela atenção e pela delicadeza. Na última semana, estive envolvido com minha filha pequena, Sofia, que adoeceu. Durante 4 dias e noites, meu papel foi ficar ao seu lado no hospital, segurando sua mão e lhe contando histórias. Agora, passado o susto e tendo recebido de volta o seu imenso sorriso, tudo parece simples; óbvio, até. O que passamos, de alguma forma, tornou meus sonhos mais nítidos. Se há algo de radical nesse mundo, esse algo é o amor. O resto é o que fazemos quando estamos irremediavelmente sós. Lembrando Yeats, desejo que todas as pessoas possam amar intensamente o que, talvez, possa ser identificado com o ato de depositar nossos sonhos aos pés de alguém. E que aqueles que amamos possam andar sobre nossos sonhos, suavemente.
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Marcos Rolim 25-03-02