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AOS
QUE NÃO QUEREM SER ESCRAVOS, NEM SENHORES
Marcos Rolim
Deputado Federal - PT
Tito Lívio escreveu no prefácio para sua
"História de Roma" que "não podíamos
suportar nossas doenças, nem o remédio para elas".
Nas disputas políticas, frequentemente, nos deparamos com situações
assim - o que talvez nos diga muito sobre a política tradicionalmente
praticada e, também, nos lembre a gravidade dos desafios que
temos.
Se cada um de nós imaginar que a política é um
jogo de "soma zero", onde, por definição, só
há espaços para vitoriosos e derrotados; se pensarmos
que o exercício das funções de governo confunde-se
com a produção de versões sempre benignas a respeito
daquilo que fazem os governantes; se imaginarmos que a virtude e a polidez
se tornam obsoletas para aqueles que transitam pelo aparelho de Estado;
se, mais do que isso, os interesses ditos "estratégicos"
passam a constituir uma espécie de "senha" pela qual
toda e qualquer posição assumida no presente encontra-se,
antes de qualquer debate, legitimada teríamos, inevitavelmente,
uma realidade glacial marcada pelo cinismo onde a busca pela verdade
cederia lugar ao hábito da submissão pura e simples. Uma
política praticada assim aprisionaria o coração
das pessoas, identificaria a política à guerra promovendo,
portanto, o ódio e o rancor e tornaria impossível o ato
gratuito. Dito de outra forma: se atuássemos orientados pela
perspectiva do poder e não, centralmente, por princípios,
o que perderíamos seria exatamente aquilo que pode diferenciar
um gesto transformador: o despreendimento.
Todos nós erramos. Os partidos políticos, no poder ou
fora dele, também erram. Nossos erros, quando reconhecidos como
tal, devem ser assumidos com absoluta tranquilidade e clareza. Penso
que um governante que se conduzisse assim, além do conforto moral
derivado da convicção de proceder corretamente, só
teria a ganhar politicamente junto aos que por ele são governados.
Todos nós confiaríamos muito mais em alguém capaz
dessa conduta. Políticos perfeitos não existem e guardariam,
tanto quanto partidos que "sempre estão com a razão",
algo de aterrorizador. Se eu e toda uma geração de companheiros
e companheiras fôssemos realizar um balanço de nossas próprias
tragetórias, encontraríamos, sem muito esforço,
posições insustentáveis; conceitos que já
compartilhamos por absoluta cegueira; condutas que afrontaram princípios
éticos; posturas intolerantes e, talvez, preconceituosas. Que
bom, eu diria! Diante dessa retrospectiva, afinal, poderíamos
concluir exultantes pela nossa própria humanidade, não
é mesmo?
Penso que o que devemos desenvolver seja a capacidade de superar constantemente
esses limites. Para isso, a crítica e a auto-crítica deveriam
ser sempre valorizadas e estimuladas. Os que assumem sua vocação
de escravos deverão sempre esconder o que pensam e, por certo,
agradarão aos seus senhores. Os que não desejam ser escravos,
nem senhores e dedicam suas vidas à militância revolucionária
aprendem a agir sem realizar cálculos de conveniência.
É um caminho muito mais difícil, reconheço; mas
me parece o único capaz de oferecer à política
um sentido de dignidade. Um caminho que, por certo, nos permitirá
repetir com Kant que "há duas coisas no mundo capazes de
encher a alma de espanto e admiração: o céu estrelado
sobre nós e o senso moral dentro de nós."
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