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O LOUCO E O VIOLÃO

Marcos Rolim
Deputado Federal - PT


Eduardo Galeano conta a história de um louco que vivia na praça de uma cidade qualquer da América Latina. Vivia ali o pobre homem cercado por seus silêncios. Era um louco especial aquele. Conhecido por todo o povoado, passava seu tempo tocando um violão imaginário. Ninguém se aproximava dele; com ele ninguém falava. Era, apenas, o "louco do violão" cujos acordes imaginários nunca foram ouvidos. Até que um cidadão, compadecido daquela imagem muda, abordou o louco. Consta que conversaram longamente; que trocaram idéias e que se surpreenderam. O cidadão, então, resolveu presentear o louco. Por óbvio, escolheu um violão de verdade e o ofereceu no segundo contato. Nosso personagem, então, emocionado, agradeceu o presente e disse: "Muito obrigado; agora eu tenho dois."

A história nos permite identificar alguns ensinamentos. Primeiramente, trata-se de perceber que os loucos possuem o direito ao espaço público. Ao invés dos labirintos dos manicômios construídos pela razão instrumental, a praça simboliza o convívio democrático insinuado por uma outra razão, de natureza comunicativa. Não é preciso, afinal, asilar e excluir a diferença radical proposta pela desrazão; sequer para tratá-la. Em segundo lugar, a história demonstra que é possível construir uma ponte, um vínculo, entre aqueles que consideramos "normais" e os outros que lançaram suas frágeis embarcações no mar revolto para além do juízo. Por fim, a resposta do louco do violão mostra que não temos o direito de "normalizar" aqueles que escutam os acordes que não escutamos.

Os que sofrem psiquicamente precisam, por certo, de ajuda. A loucura, em si mesma, é um grito deslizando sobre um vidro sem ângulo e sem superfície; ela é o somatório de todos os baldios; o vazio superlotando-se de vazios; um jogo de espelhos onde o infinito se ausentou. E se é preciso recorrer às metáforas para descrevê-la, talvez seja porque a poesia é a loucura das palavras. Nada disso, entretanto, nos autoriza a despir os loucos de seus dolmãs de Napoleão e remetê-los à fome das paredes e das celas, aos rígidos horários, aos abusos medicamentosos e aos choques elétricos. Todos eles possuem tanto o direito ao tratamento, quanto o direito à convivência em sua própria diferença.

Nesse último 18 de maio, marcamos o dia nacional da luta antimanicomial, com novas esperanças. Em junho, estaremos comemorando 10 anos de vigência da Lei da Reforma Psiquiátrica no RS, a primeira da história de nosso país. Como autor dessa lei, me emociona saber que ¾ dos municípios gaúchos possuem, atualmente, serviços de saúde mental alternativos ao modelo tradicional de asilamento. A reforma é uma realidade entre nós, o que tem significado mais cidadania e dignidade para os pacientes. Com a rede de atenção em saúde mental, uma página de horror no Brasil começa, mesmo, a ser virada. Uma boa notícia, enfim.

 


Marcos Rolim 20-05-02

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