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CORAÇÃO PALESTINO

Marcos Rolim
Deputado Federal - PT


Há um filme maravilhoso chamado "The Commitments" que conta a história fictícia de uma banda irlandesa de Soul Music. O grupo, montado para o filme, ficou tão bom que virou banda mesmo e, até hoje, roda o mundo. Em um dos diálogos da película, alguém diz: "- Nós, os irlandeses, somos os negros da Europa". Refería-se ao fato da discriminação de um povo e à história de dominação da própria Irlanda pelo império britânico. Lembrei dessa frase ao assistir pela TV mais uma cena das tropas israelenses invadindo a Cisjordânia. Os Palestinos, hoje, são os negros do mundo. Sobre esse povo pesa uma maldição. Tudo se passa como se eles fossem obrigados a viver eternamente como párias, exilados do mundo, sem o direito de se reconhecerem em um território. Para a hegemonia política e militar globalizada, os Palestinos devem ser fantasmas; coisas semoventes; sombras lamentáveis ou, simplesmente, escravos modernos.

A Nação Palestina, não obstante, está de pé. Por entre os escombros e a dor, em meio às humilhações infinitas, há um povo que se revolta e luta desesperadamente pela sua dignidade. A pretensão palestina a um Estado independente há muito deveria ter sido materializada. Mas a política externa de Israel, comandada por um fascínora chamado Sharon, obriga a nação palestina a contar seus cadáveres enquanto vai ocupando militarmente suas cidades, destruindo seus prédios e executando seus filhos. Essa é uma estratégia de um Estado, apoiado econômica e militarmente pela polícia do mundo - os EUA, diante da qual as nações civilizadas rendem suas homenagens. Seus governantes, com raríssimas exceções, manifestam apenas as lamentações protocolares enquanto assistem, coniventes, à escalada de violência sobre a população civil.

O ódio que se acumula há décadas produziu, também, o terror oferecidos por grupos extremistas contra o povo de Israel. Aqui, a imbecilidade demonstra como ela própria só pode gerar mais imbecilidade. Quando um "homem bomba" explode seu próprio corpo em uma cafeteria de Tel Aviv, termina por oferecer, além das mortes de inocentes e de mais sofrimentos, a justificativa que os radicais da extrema direita israelense precisam para desencadear seu esforço de extermínio. O terrorismo é não apenas um ato criminoso, injustificável e intolerável; é, também, uma manifestação de insuperável covardia. Por ele, pretende-se afirmar que uma "boa causa" vale a morte. Ora, o que está em jogo no Oriente Médio é, precisamente, que nenhuma causa política vale a vida de quem quer que seja; ainda que fosse uma só vida. Mas, para os Palestinos, também está em jogo o conceito de Paz. Ela, afinal, não pode ser alcançada incondicionalmente. Não pode equivaler a "paz dos cemitérios" que, por certo, agradaria à política terrorista de Sharon.

Seja como for, aqui dessa distância, nos cabe denunciar o absurdo; para que ele não seja aceito, para que não nos acostumemos com ele. - "Tirem suas patas da Palestina!" É o que o nosso coração nos manda dizer.

Marcos Rolim 03-06-02

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