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NO TEMPO DO SPRAY

  Houve um tempo em que a política foi mais simples, lembram? Havia uma ditadura no Brasil, por exemplo, e o país se dividia entre os que eram a favor e os que eram contra. Havia, também, os que não eram nem uma coisa nem outra e que, por isso, ganhavam o título de "alienados". Havia uma esquerda e uma direita e não restavam dúvidas sobre quem merecia uma ou outra qualificação. Havia o capitalismo e o socialismo, a reforma e a revolução, o futuro e o passado, o bem e o mal. Uma época tão contrastada e tão simples que bastava um tubo de spray para que tivéssemos uma "política de comunicação". Minha militância teve início há 20 anos e formou-se ao ritmo de uma série de "palavras de ordem". Sínteses mágicas que logo se reproduziam pelos muros como que anunciando verdades evidentes e caminhos claros. Havia muito de subversivo nas "pichações" então. Elas eram como que uma afronta à noção de "ordem" vigente e eram realizadas mediante um particular esquema de "segurança". Pichar, além de tudo, era uma forma de espantar o medo e multiplicar nossa confiança entre os demais. E o melhor é que funcionava, podem acreditar.

Não sei se todos já observaram, mas pode-se, hoje, verificar uma determinada crise naquela forma singular de comunicação política o que se estende ao grafitismo em geral. O primeiro problema, me parece, prende-se ao fato de que já não há "palavras de ordem" verdadeiramente significativas. As que restaram teimam em dizer muito pouco e, decididamente, não oferecem sínteses relevantes. O leitor pode testar sua própria criatividade. Assim, se tivéssemos um spray ao nosso alcance agora, o que escreveríamos? "Abaixo o El Niño" ? Ou, quem sabe, "Pela privatização da GM" ? Ou, ainda, "Que venha o granizo desde que se vá o FHC" ? Difícil, não é mesmo?

Talvez, devêssemos incorporar a convicção de que não há noções simples em política e que, antes de "palavras de ordem", nos é exigido perguntar sobre a "ordem nas palavras". Particularmente de uma esquerda moderna espera-se que tenha a capacidade elementar de superar o "tempo do spray". Para isto, ao invés das fórmulas, que se preze o raciocínio; que o complexo surja ali onde habitava o simples; que se dissemine o gosto pela dúvida e a desconfiança diante das certezas; que se redescubra o prazer pela invenção e que se cultive a capacidade de se surpreender. Afinal, no tempo do spray estivemos todos muito ocupados com a verdade para que pudéssemos aprender alguma coisa.

   Marcos Rolim - 11/11/97

OPINIÃO

 

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