cronic.gif (909 bytes)

A FACE DOS CULPADOS

Às vésperas do Dia Internacional da Mulher, o Brasil não poderia mostrar outra imagem que não fosse a de uma mulher pobre e negra, dando à luz no saguão de um hospital, sobre um sofá, sem qualquer atenção médica, cujo filho só não engrossou as estatísticas de mortalidade infantil graças à solidariedade que brota da alma dos brasileiros.

Anita, ao final da sua gravidez, percorreu os hospitais de Porto Alegre, em busca de um leito e do atendimento médico que a Constituição Federal lhe assegura. Já entrando em trabalho de parto, só encontrou portas fechadas e a firme disposição dos seguranças que lhe proibiam o acesso às dependências dos hospitais. Barrada na Santa Casa (Instituição dita filantrópica) e no hospital Presidente Vargas (do Governo Federal), Anita reuniu a coragem das mães para invadir aos gritos o saguão do hospital Fêmina, (Grupo Hospitalar Conceição) suplicando ajuda. Mais uma vez, não foi atendida. Mas Anita teve sorte. Embora tenha ouvido de algumas auxiliares do Fêmina frases como: "Quem mandou engravidar?", seu filho Ricardo foi salvo pelas mãos amigas de cidadãos e cidadãs que presenciaram o drama vivido.

Por ironia, quando o recém nascido repousava sobre o peito da mãe, as bandeiras do Rio Grande do Sul e do Brasil lhe serviram de coberta. Se houvesse música ao fundo, talvez pudéssemos ainda ouvir o refrão: "Sirvam nossas façanhas de modelo a toda a terra"; ou, quem sabe, uma rápida menção ao "berço esplêndido". Por tudo o que sofreu, Anita pôde experimentar, de fato, uma sentença cruel. Para ela, tudo ocorreu como se não houvesse vaga para Ricardo; vale dizer: como se não houvesse vaga no mundo. Dificilmente, teremos um símbolo mais claro da realidade reservada aos pobres neste país. Não há lugar para eles no modelo econômico e social imposto pela tigrada. Mais tarde, ainda revoltada, Anita diria que o seu primeiro pensamento foi o de culpar o hospital. Mas, naquele momento, ela percebia que o culpado não possuía uma face. " Se tivesse, eu já tinha dado uns tapas nele" , declarou. Enganou-se Anita. Os culpados possuem várias faces identificáveis. A primeira e a mais conhecida dela é sorridente e otimista e atende pelo nome de Fernando Henrique Cardoso. É dele a responsabilidade maior pelo sucateamento da saúde pública no Brasil. Há, entretanto, muitas outras faces. No quadro das responsabilidades pela situação de abandono a que foi relegada a "turma do andar de baixo" deve figurar, obrigatoriamente, a face de todos aqueles parlamentares que são coniventes com a insensibilidade governamental e a face de todos os que procuram transformar a saúde em um negócio lucrativo.

Marcos Rolim - 10/03/98

OPINIÃO

 

[Inicial]
[Links] [Ensaios] [Crônicas] [Currículo] [Relatório Azul]
[Projetos Parlamentares] [Discursos selecionados] [Direitos Humanos]