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DIREITOS HUMANOS E
EFICÁCIA
Chegamos ao final do século XX diante de
um imenso conjunto de perplexidades e impasses. O "mal estar" desta época
está inscrito na lembrança de todas as promessas não
cumpridas de liberdade e justiça social mas, possivelmente, só
se confunda com a melancolia quando diante da falência de sua utopia
mais forte: o Socialismo. Deserdados de seus modelos pela realidade
incontrastável do totalitarismo, os revolucionários de nosso
tempo - que sempre conviveram com o orgulhoso desconforto de se saberem
inadaptados, devem enfrentar, mais cedo ou mais tarde, a dolorosa
experiência da inadaptação de sua própria visão
de mundo. As sociedades que nos foram legadas persistem em sua
extraordinária vocação para a reprodução
da iniquidade e, por conta deste resultado, as reconhecemos na exata medida
do estranhamento que nos provocam. As idéias mais generosas de
transformação social que as gerações passadas
acalentaram, todavia, tornaram-se cúmplices da negação
mais radical do próprio sonho de liberdade que as embalou. Todo aquele
que se permita refletir e lutar por sobre este vazio saberá que as
tarefas presentes de erdrentamento à injustiça nos exigem bem
mais do que a adesão a um corpo doutrinário qualquer. O pensamento
herdado, de toda sorte, nos oferece tão somente referências
para o necessário balanço desta época. Os desdobramentos
políticos e culturais desta conclusão, para além do
sentimento de orfandade, inauguram perspectivas radicais e atualizam,
dramaticamente, o papel do sujeito.
Para as novas gerações, tudo se passa como se o "espírito
objetivo" desta época pretendesse assegurar o caminho incontroverso
de um egoísmo sustentado cada vez mais sem pudor. Súbito, nos
percebemos contemporâneos de uma tendência à
atualização do "Estado de natureza"; com a diferença
de que, neste caso, a terrível hipótese hobbesiana se insinua
desde as entranhas daquilo que se convencionou chaom
"civilização". Uma visão dogmática, não
obstante, poderia arguir: Sem a perspectiva utópica (entenda-se: o
Socialismo), nos restaria, então, a complacência? A pergunta
poderia ser colocada de outra forma se disséssemos: Sem as certezas
que sempre mantivemos sobre o futuro, é possível não
ceder diante do presente? Parece claro que sim. Aliás, a imensa maioria
daqueles que se movimentam quotidianamente contra as
injustiças não compartilham de qualquer "verdade" inscrita
no futuro; se não por outro motivo, pelo fato de que este tipo de
noção não guarda nenhuma relação com o
estatuto da política. Ainda assim, o futuro pode ser pensado,
concretamente, se projetamos nele as exigências radicais de uma visão
moral. Não podemos, com efeito - e felizmente, saber como será
a economia do futuro, mas podemos exigir no debate contemporâneo
políticas econômicas que combatam a desigualdade social e erradiquem
a miséria. Mais do que isso, podemos fundar opções pela
aposta na eficácia de uma política pública que se proponha
este objetivo. E assim sucessivamente em um conjunto infinito de outros
temas.
Pois bem, sustento que a plataforma atualizada dos Direitos Humanos pode
cumprir, neste processo, o papel de nos oferecer um paradigma ético
coerente e radical. Vale dizer: a idéia dos Direitos Humanos pode
ser incorporada como uma "idéia reguladora", capaz de selecionar e
excluir opções políticas concretas que se apresentam
aos sujeitos. Reside neste ponto a maior eficácia dos Direitos Humanos.
Ao contrário das utopias tradicionais, a idéia dos Direitos
Humanos não pretende se confundir com o "sentido da história"
nem se propõe a ilusória missão de substituir as tarefas
de elaboração política. Antes disto e por sobre isto,
os Direitos Humanos nos colocam em contato com um "rumo" do qual não
nos é permitido se afastar. Estamos, bem entendido, nos referindo
a um conjunto potente de princípios racionais que elaboram a mais
subversiva das pretensões transformadoras. Princípios que não
definem um mundo desejado e que não asseguram, por si mesmos, a conquista
de nada. Afinal, o desafio de realizá-los não é uma
promessa imanente destes próprios princípios, mas uma
responsabilidade dos sujeitos. Não obstante, o que tais princípios
nos garantem é, em certa medida, muito mais decisivo: por eles é
possível fundar racionalmente a ação política
e legitimá-la no espaço público; o que, por extensão,
introduz a idéia de uma nova política; vale dizer: uma nova
conduta, um novo discurso e outra pauta de ação.
Marcos Rolim - 13/04/98
OPINIÃO
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