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AGORA SOMOS UM Em memória de Luiz Sérgio Metz
Costuma se repetir que a morte é a ausência. Há, entretanto, uma presença impossível na morte repartida nos que ficaram. Luiz Sérgio Metz, o "Jacaré", se repartiu entre nós e já é difícil saber se foi um de nós que morreu ou se morremos um pouco todos nós. Em si mesma, a morte é um não-conceito. Uma palavra que expressa a supressão do conteúdo e que corrói a razão. Diante dela, esgotado o pensamento, resta-nos os subterfúgios. Não se pode compreender a morte pela mesma razão que nos é impossível interrogar o silêncio. Pode-se dizer que a morte é o nada ou mesmo afirmar que ela é menos do que nada. Com Sêneca e com os estóicos, poderíamos repetir que "depois da morte tudo acaba, inclusive a morte" ou, afirmar, como Feuerbach, que "a morte é um fantasma, pois só existe quando não existe". Tudo seria, de qualquer forma, simplesmente inútil. O que verdadeiramente importa é a perda e seu sem-sentido, a dor que se derrama em nós e que nos envelhece e esta estranha sensação de que a morte pode se alojar em nossa alma assim como se fosse a lembrança da injustiça. Quando morreu Manoel Scorza, Jacaré escreveu um poema belíssimo intitulado "Redoble por Scorza". Onde escreveu versos como: "Escrevem Scorza no barro, nos duzentos dias de chuva/ e Manoel no tijolo, meio índio, meio nada, meio tudo./ Gemada de ovo de cobra/ cisco e cascavel imaginária/ plástica cobra e punhal pulpeiro e reza de traições/ de traídos bugres de lama e revolta... Scorza, raio insepulto/colorado raio de cobre e Peru..." No bilhete que me enviou com o poema, Jacaré disse que quando soube da morte do escritor andino teve uma infinita vontade de agradecer-lhe pelos livros que havia escrito. A vontade que tenho agora, é a de agradecer ao meu amigo pelos livros, pelas letras das canções, pelos panfletos, pelas frases desconcertantes, pelas metáforas encantadas. Afinal, ainda que o mundo não tenha tido tempo de sabê-lo, sei que morreu o maior dos nosso poetas e todos os que conheceram seus textos sabem disso. Não obstante, percebo que a morte do Jaca nos subtrai algo mais do que um talento infinito. O quê perdemos - definitivamente agora - foi a hipótese da reconciliação.
Nós todos, do grupo de Santa Maria, que nos espalhamos entre Baudelaire
e Benjamin, já havíamos perdido a sobriedade com a partida
do Memo (Adelmo Genro Filho). Nos tiraram, agora, a embriaguez. Nem a filosofia
será, para nós, a mesma; nem a poesia terá o mesmo sentido.
Não estamos orientados, nem perdidos. Nosso caminhos, simplesmente,
não se encontrarão mais. O que restava do nosso contorno se
apagou. Estamos irremediavelmente sós, incompreendidos em nossa
própria língua, esgrimindo sem espadas; cavalgando, como escreveu
Jaca, com os olhos vendados. E nem podemos mais dizer, como Gomercindo, o
personagem de "Assim na Terra", que "dois contra a desgraça são
quatro!" Agora somos um. Nós e a desgraça. Marcos Rolim - 20/06/96 OPINIÃO |